25 anos do Plano Real

Preços descontrolados, perda da noção do valor dos bens de consumo e troca frequente da moeda. Essas são algumas das características da economia nacional que figuram nas lembranças de boa parte dos brasileiros que conviveram com a hiperinflação, um vilão que não dá as caras desde a adoção do Plano Real, que hoje completa 25 anos.

Quem era criança nos anos 1990 pode não lembrar, mas houve um tempo em que ir ao supermercado para abastecer a geladeira era um verdadeiro “deus nos acuda”. Com a inflação nas alturas, o governo congelava os preços das mercadorias. A fim de evitar prejuízos econômicos, fornecedores diminuíam o estoque das prateleiras. Quem vencia a disputa por produtos tentava, ao máximo, estocar insumos para garantir uma vida digna.

A pesquisa de preços também fazia parte da rotina dos brasileiros. O encarecimento de mercadorias obrigava os consumidores a verificar o valor dos produtos quase que diariamente. Deixar para comprar na semana seguinte era arriscado, pois o custo poderia ser muito maior. Tamanho descontrole desapareceu após a execução de medidas implantadas pelo Plano Real, responsável por inserir no cotidiano do brasileiro uma nova moeda, de mesmo nome.

Iniciado em 1993, durante o governo de Itamar Franco, o Plano Real teve como protagonista o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. Em campo, estavam uma série de medidas para além da mudança da moeda. Integravam a transição práticas como o ajuste fiscal, com cortes de gastos e flexibilidade orçamentária, e a adoção da Unidade Real de Valor (URV), uma “moeda imaginária” fundamental para a transição do cruzeiro real para o real.

O projeto de estabilização econômica obteve êxito e foi fundamental tanto para a eleição quanto para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O esforço para manter a nova moeda nos eixos também foi perseguido durante os oito anos de governo de Lula (PT).

Segundo o professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e conselheiro federal de Economia Lauro Chaves, os bons ventos trazidos pelo Plano Real foram fundamentais para alicerçar projetos de diminuição da desigualdade e da carestia no País. ”A história vai mostrar que nesses 16 anos (que sucederam a implantação do Real) o Brasil conseguiu a estabilidade econômica, a redução da pobreza e a melhoria dos padrões da qualidade de vida da sociedade”, analisa.

Passadas mais de duas décadas, o balanço geral da implantação do Plano Real é positivo. “Ter a mesma moeda durante 25 anos com inflação baixa é uma conquista do povo brasileiro”, afirma Alexandre Andrada, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB).

Mas mesmo com índices inflacionários incomparáveis ao que tínhamos antes da adoção do Real, não se pode dizer que a economia brasileira tem apenas o que celebrar. “Havia uma expectativa muito grande de que quando se controlasse a inflação nós voltaríamos a crescer como crescíamos nos anos 60, 70″, avalia Andrada.

Chaves dialoga com tal ideia ao destacar que a consolidação da moeda foi apenas um primeiro passo para outras iniciativas que poderiam tomar forma, como o fortalecimento industrial e comercial. “O Plano Real era um plano para trazer a estabilidade da economia, e muita gente confundiu como um plano de desenvolvimento econômico”, reflete.

Quando se compara o Real a outras moedas de economias vizinhas, o peso chileno, de acordo com Andrada, foi usado para o desempenho econômico do Chile no período pós-década de 1980, tornando o país mais rico que o Brasil. Cenário que muda quando a analogia é feita com a Argentina. “Tem atravessado problemas maiores, de inflação, de falta de reservas internacionais”, analisa o professor da UnB.

Sobre o futuro, Andrada refuta a possibilidade de retorno de um cenário com remarcação frenética de preços e troca frequente de moeda. “Nossa moeda continua robusta, com inflação razoavelmente baixa, previsível. Não se tem, no horizonte do Brasil, uma mudança de regras do jogo”.

 

Um transição vagarosa

Ao contrário de planos anteriores (Cruzado I e II, Bresser, Verão, Collor I e II) que não tiveram sucesso com a tentativa de baixar a inflação, o Plano Real obteve êxito ao adotar um conjunto de estratégias planejadas, implantadas de modo gradual. “Antes, a gente fazia as transições de uma hora para a outra, no estilo big bang”, lembra Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea/USP).

Utilizada durante quatro meses, até a implantação do real, a Unidade Real de Valor (URV) foi uma moeda de transição cuja cotação era alterada diariamente pelo Banco Central do Brasil (BCB). Precificados em URV, os produtos eram pagos em cruzeiros reais, de modo que, com o passar dos dias, a moeda de transição se valorizava cada vez mais. Em 1º de julho de 1994, todos os preços da economia estavam exclusivamente em reais.

Alexandre Andrada, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) detalha que, no início do Real, o câmbio alicerçava as expectativas de inflação. Isso tomou forma, segundo ele, entre os anos de 1994 a 1999. “Grosso modo, era como se fosse um real equivalendo a um dólar, e isso ancorava as expectativas de inflação”, detalha. Ele conta que esse sistema de controle ganhou novos contornos a partir de 1999, quando se iniciou o sistema atual de metas para a inflação.

“O Banco Central anuncia a meta e controla a taxa de juros de modo a fazer com que a inflação convirja para essa meta”, explica. Segundo Andrada, apesar dos altos e baixos da economia brasileira desde o início desse novo modelo, a adoção a tal formato tem se mostrado eficiente para o País.

De acordo com o Banco Central do Brasil (BCB), a inflação saiu da curva do intervalo de tolerância projetado em cinco anos: 2001, 2002, 2003, 2015 e 2017. Em todas essas ocasiões, o presidente do BCB escreveu carta aberta ao presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), detalhando as causas do descumprimento da meta, bem como as medidas para garantir o retorno aos limites anteriormente estabelecidos.

 

A hiperinflação em diferentes contextos

À época da implantação do Plano Real, os núcleos da sociedade brasileira conviviam com a inflação de diferentes modos. Segundo Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea/USP), o maior beneficiado com a nova moeda foi o consumidor mais pobre.

Isso porque a classe rica, antes do Plano Real, aplicava dinheiro a taxas muito altas, similares às da inflação, e obtinham ganhos em cima disso. “A inflação não era problema para os ricos, mas para os pobres. Estes ganhavam salário e tinham que consumir imediatamente”, lembra Feldmann.

O pesquisador avalia que, sem a execução do plano, políticas como o Bolsa Família e a valorização do salário mínimo com base na inflação, própria do governo Lula, não teriam saído do campo das ideias.

Mas os impactos do descontrole econômico daqueles tempos também eram sentidos pelos empresários. Em anos de hiperinflação, o valor cobrado pelo produto final nem sempre era condizente com o que foi pago pela matéria-prima. O dia a dia corporativo era dificultado até mesmo para a execução de simples tarefas. “Era impossível fazer planejamento adequado, controle financeiro e de fluxo caixa, bem como orientar um sistema de custos”, elucida Lauro Chaves, conselheiro federal de Economia.

Feldmann, que também é ex-diretor de empresas, complementa o raciocínio ao avaliar que o período dificultou o planejamento financeiro de empresas, um resquício que, segundo ele, permanece ainda nos dias atuais. “Com aquela inflação doida, não dava para planejar nada”, lembra.

O âmbito que menos sofria com a hiperinflação, de acordo com o pesquisador, era o governo. Por meio de atrasos de pagamentos e aumento de impostos, as contas do Estado tentavam se equilibrar. “Essa carga tributária que nós temos agora, no Brasil, que é da ordem de 30% do PIB, vem daquela época”, avalia.

Valorizada demais?

Anos após a “década perdida”, marcada pelos altos déficits públicos e o alto grau de endividamento externo, a boa convivência com preços controlados abre espaço para o debate sobre as possibilidades de fortalecimento da moeda brasileira.

A estabilidade da inflação, de acordo com Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea/USP), veio acompanhada por uma forte valorização do real. De acordo com o pesquisador, isso pode dificultar as exportações de produtos manufaturados. “Se você desvaloriza o real você consegue exportar mais. É ótimo para quem exporta. Isso é o que precisa: dificultar importações de produtos desnecessários”, defende.

Já Alexandre Andrada, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), acredita que seria difícil para o governo controlar uma taxa de câmbio nesse patamar sem causar prejuízos para a sociedade.

“O câmbio, no Brasil, é determinado pelo mercado, livre oferta e demanda. O Banco Central pode fazer intervenções para evitar movimentos muito violentos. O governo, mantendo o câmbio desvalorizado, vai precisar comprar o excesso de moeda que aparecer na economia, o excesso de dólares”, explica.

Uma transição vagarosa

Ao contrário de planos anteriores (Cruzado I e II, Bresser, Verão, Collor I e II) que não tiveram sucesso com a tentativa de baixar a inflação, o Plano Real obteve êxito ao adotar um conjunto de estratégias planejadas, implantadas de modo gradual. “Antes, a gente fazia as transições de uma hora para a outra, no estilo big bang”, lembra Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea/USP).

Utilizada durante quatro meses, até a implantação do real, a Unidade Real de Valor (URV) foi uma moeda de transição cuja cotação era alterada diariamente pelo Banco Central do Brasil (BCB). Precificados em URV, os produtos eram pagos em cruzeiros reais, de modo que, com o passar dos dias, a moeda de transição se valorizava cada vez mais. Em 1º de julho de 1994, todos os preços da economia estavam exclusivamente em reais.

Alexandre Andrada, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) detalha que, no início do Real, o câmbio alicerçava as expectativas de inflação. Isso tomou forma, segundo ele, entre os anos de 1994 a 1999. “Grosso modo, era como se fosse um real equivalendo a um dólar, e isso ancorava as expectativas de inflação”, detalha. Ele conta que esse sistema de controle ganhou novos contornos a partir de 1999, quando se iniciou o sistema atual de metas para a inflação.

“O Banco Central anuncia a meta e controla a taxa de juros de modo a fazer com que a inflação convirja para essa meta”, explica. Segundo Andrada, apesar dos altos e baixos da economia brasileira desde o início desse novo modelo, a adoção a tal formato tem se mostrado eficiente para o País.

De acordo com o Banco Central do Brasil (BCB), a inflação saiu da curva do intervalo de tolerância projetado em cinco anos: 2001, 2002, 2003, 2015 e 2017. Em todas essas ocasiões, o presidente do BCB escreveu carta aberta ao presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), detalhando as causas do descumprimento da meta, bem como as medidas para garantir o retorno aos limites anteriormente estabelecidos.

Valorizada demais?

Anos após a “década perdida”, marcada pelos altos déficits públicos e o alto grau de endividamento externo, a boa convivência com preços controlados abre espaço para o debate sobre as possibilidades de fortalecimento da moeda brasileira.

A estabilidade da inflação, de acordo com Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea/USP), veio acompanhada por uma forte valorização do real. De acordo com o pesquisador, isso pode dificultar as exportações de produtos manufaturados. “Se você desvaloriza o real você consegue exportar mais. É ótimo para quem exporta. Isso é o que precisa: dificultar importações de produtos desnecessários”, defende.

Já Alexandre Andrada, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), acredita que seria difícil para o governo controlar uma taxa de câmbio nesse patamar sem causar prejuízos para a sociedade.

“O câmbio, no Brasil, é determinado pelo mercado, livre oferta e demanda. O Banco Central pode fazer intervenções para evitar movimentos muito violentos. O governo, mantendo o câmbio desvalorizado, vai precisar comprar o excesso de moeda que aparecer na economia, o excesso de dólares”, explica.

A hiperinflação em diferentes contextos

À época da implantação do Plano Real, os núcleos da sociedade brasileira conviviam com a inflação de diferentes modos. Segundo Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea/USP), o maior beneficiado com a nova moeda foi o consumidor mais pobre.

Isso porque a classe rica, antes do Plano Real, aplicava dinheiro a taxas muito altas, similares às da inflação, e obtinham ganhos em cima disso. “A inflação não era problema para os ricos, mas para os pobres. Estes ganhavam salário e tinham que consumir imediatamente”, lembra Feldmann.

O pesquisador avalia que, sem a execução do plano, políticas como o Bolsa Família e a valorização do salário mínimo com base na inflação, própria do governo Lula, não teriam saído do campo das ideias.

Mas os impactos do descontrole econômico daqueles tempos também eram sentidos pelos empresários. Em anos de hiperinflação, o valor cobrado pelo produto final nem sempre era condizente com o que foi pago pela matéria-prima. O dia a dia corporativo era dificultado até mesmo para a execução de simples tarefas. “Era impossível fazer planejamento adequado, controle financeiro e de fluxo caixa, bem como orientar um sistema de custos”, elucida Lauro Chaves, conselheiro federal de Economia.

Feldmann, que também é ex-diretor de empresas, complementa o raciocínio ao avaliar que o período dificultou o planejamento financeiro de empresas, um resquício que, segundo ele, permanece ainda nos dias atuais. “Com aquela inflação doida, não dava para planejar nada”, lembra.

O âmbito que menos sofria com a hiperinflação, de acordo com o pesquisador, era o governo. Por meio de atrasos de pagamentos e aumento de impostos, as contas do Estado tentavam se equilibrar. “Essa carga tributária que nós temos agora, no Brasil, que é da ordem de 30% do PIB, vem daquela época”, avalia.

Fonte: O POVO Online