“A arte consegue nos tirar do lugar da tristeza”

FORTALEZA, CE, BRASIL,27-09-2019:Azuis com Mona Gadelha, cantora.  (Foto: Fabio Lima/O POVO)

Em meio à Terra da Luz e de Iracema, foi nos riffs estrangeiros do rock’n'roll e nos lamentos viscerais do blues que Mona Gadelha resolveu mergulhar de cabeça. Do apelido dado ainda na juventude e devidamente chancelado pelo pernambucano Alceu Valença, foi na mesma época que ela, fã de Janis Joplin crescida entre os bairros da Aerolândia, Benfica e Centro, aprofundou os laços ao lado de uma turma conhecida nacionalmente por “Pessoal do Ceará”. A canção autoral Cor de Sonho cravou o ingresso de Mona ao célebre show Massafeira (1979) e, daí, nunca mais parou.

Sete discos lançados, idas e vindas ao Sudeste, a formação em Jornalismo pela UFC contribuiu para sua trajetória, que atualmente abraça com afeto e responsabilidade a coordenação do Laboratório de Música da Escola Porto Iracema das Artes. Cantora e compositora, Mona Gadelha, em entrevista ao O POVO, relembra sua história, lança o olhar sobre os tempos atuais e o cenário da música local e, certeira, dispara: “Eu não aceito mais nenhuma vírgula de machismo”.

O POVO – Em que momento a Simone passou a ser Mona?

Mona Gadelha – Você sabe que meus amigos da escola e da universidade continuam me chamando de Simone… (risos) E eu agradeço a minha mãe porque me remete logo à Simone de Beauvoir. Aliás, quando eu era criança, eu tinha um professor que, na hora da chamada, ele falava: “Simone de Beauvoir”. E eu falava: “Meu Deus, quem é essa mulher?” (risos) Criança, né! Mona surgiu como um apelido. Eu, com 14 anos, tive um namorado chamado Ricardo Augusto, que é um grande compositor e um grande amigo, parceiro, que me chamava de Mona. Pegou Simone e fez uma corruptela de Mona, né… E aí, a gente teve uma época no Brasil, na música, que o nome era uma questão muito importante, então eu me lembro de ter participado do festival Costa do Sol – eu tinha uns 16, 17 anos (era em 1977, eu ia fazer 17 anos) – e eu dei uma canja com o Alceu Valença. E ele me falou: “Seu nome é Simone, pois é… Mas tem a cantora Simone. Como é que te chamam?”. E eu disse: “Mona”. Aí ele falou: “Mona Gadelha!”. Então foi o Alceu Valença que fez essa sugestão.

OP – E você vem de uma família com muitos irmãos? Transitou por quais bairros nessa época?

Mona – A minha infância foi Aerolândia-Benfica. Morei na Aerolândia até os dez anos, em 1970 – nasci em 1960 – e meus avós moravam no Benfica. Então eu costumava passar férias na casa dos meus avós, eu lia muito com o meu avô que gostava muito de ler jornal, então a gente lia muito o jornal O POVO, juntos, era muito legal… E depois fui morar no Centro da Cidade, aos dez anos. Minha mãe achou interessante mudar pro Centro – minha mãe era funcionária pública (hoje em dia é aposentada) e tinha uma inteligência, que hoje eu fico pensando. Ela pensou: “É melhor no Centro porque vocês vão poder ir à escola a pé”. Estudei no colégio João Pontes, depois no Cearense, e eu e meu irmão íamos a pé. E, pra mim, foi uma experiência que eu, até hoje, me lembro daquelas ruas.

OP – E na terra do forró, uma cearense resolve abraçar o rock e o blues. Como surgiu o teu interesse por esses estilos

e se foi difícil, já naquela época, até pelo

fato de ser mulher?

Mona – Eu não tinha a dimensão do quanto seria difícil. Mas eu acho que, como todo adolescente de meados dos anos 1970, eu me interessei pelo rock como uma forma de expressão, como uma forma de me colocar no mundo, de romper barreiras de timidez, de ter uma apreciação muito grande pela poética do Bob Dylan, pela poética dos Beatles… Depois no rock do Brasil com os Mutantes, a própria Tropicália também com suas referências de rock fortes, com uma Gal Costa cantando Divino Maravilhoso… Mas a minha primeira emoção com o rock foi com a Janis Joplin quando eu a ouvi cantando Summertime num programa que tinha na Rádio Uirapuru chamado O Show do Grilo. Esse programa era de noite e era essencialmente de rock e blues. Eu ouvia esse programa religiosamente todas as noites! E comecei a ter contato com essa música visceral, muito verdadeira, que me passava uma verdade e uma mensagem de que as coisas precisavam ser mudadas, uma mensagem anti-convencional, de que a mulher também pode cantar, pode fazer música, pode tocar guitarra, pode se recolocar no mundo… Só que isso, em meados dos anos 1970, o Brasil vivendo uma ditadura militar, os ânimos acirrados entre quem era engajado e quem era desbundado (risos)… Era uma polarização, mas não era essa que a gente vive hoje, não. Eu acho essa polarização hoje muito cafona, muito sem graça! Já que a gente já usou todas as palavras negativas do dicionário pra tentar definir essa situação, acho que a Fernanda Young sintetizou como cafona. E é isso mesmo. Então cantar rock nessa época, eu comecei com 14 anos, bem precoce mesmo!

OP – E já compunha?

Mona – Já começava a fazer. Eu ouvi um chamado nesse mesmo programa O Show do Grilo, do Will Nogueira, pra montar o elenco com os artistas que iriam ser selecionados para o 1º Festival de Rock da Cidade, isso em 1974. Esse festival aconteceu na Escola Técnica Federal, que hoje é o IFCE. Então a gente ia à rádio, se inscrevia e eu me lembro que eu era uma das poucas mulheres no meio daquelas pessoas todas, os caras todos cabeludos, né… Na hora, já montamos uma banda e eu falei: “Pô, agora eu vou ter que compor. Agora eu vou ter que inventar”. Aí fiz duas músicas bem ingênuas, corri pra fazer, cantei com os amigos me acompanhando – Ricardo Augusto, o saudoso Lizoel Costa (que depois seria um dos fundadores do Língua de Trapo, em São Paulo, mas ele morava aqui), e me apresentei. Foi uma apresentação, assim, perdida em Marte! Mas foi com 14 anos e, daí, eu comecei com a convivência com essas pessoas do rock em Fortaleza. Depois, em 1979, a nossa conexão foi com o Pessoal do Ceará porque nós fomos convidados a participar do Massafeira. Então foi tudo muito legal. O Cláudio Pereira (como um agitador cultural, uma pessoa muito antenada) nos adotou como “A Turma do Rock”; o Augusto Pontes que nos chamou pra participar do Massafeira e isso foi muito importante e avalizado pelo Ednardo também porque nos colocou em contato com o Pessoal do Ceará. Aí foi uma alegria ter essa possibilidade de conviver com artistas como Rodger, Téti, Petrúcio Maia, etc.

OP – O início da tua carreira, então, está intrinsecamente relacionado à Massafeira?

Mona – Eu ia fazer 19 anos e lembro que o Ednardo ligou pra minha mãe pedindo autorização pra eu viajar para o Rio de Janeiro. E hoje eu realmente fico pensando que minha mãe foi incrível em ter permitido porque, naquela época, as coisas eram muito diferentes. Mas minha mãe sabia do meu amor pela música também, eu desde criança tinha esse amor pela música. A primeira música que eu me lembro de ter ouvido e ter me encantado, criancinha, foi Oh! Darling dos Beatles, que eu ficava tentando imitar e tudo. Mas é tão bonito a gente pensar nesse período da história do Ceará como um acolhimento, como a inteligência e o afeto do Augusto de falar: “Os meninos do rock têm que participar também disso aqui!”. E isso é muito lindo, né, quando eu penso hoje. Eu participei com uma música que eu tinha mostrado pela primeira vez num festival promovido pela Wânia Dummar no jornal O POVO, que era o “Mulher Maio Mulher”. Esse festival era muito interessante porque é bem pioneiro isso. Já era um festival voltado pra atividades femininas, atividades artísticas, e eu lembro de me apresentar no Náutico Atlético Cearense, com uma banda e tocando guitarra, e mostrei Cor de Sonho pela primeira vez nesse festival. E foi justamente a música que Ednardo e Augusto Pontes escolheram para o Massafeira.

OP – A tua ida para o Sudeste foi por conta do trabalho ou da profissão de jornalista?

Mona – Foram as duas coisas. Eu, depois do Massafeira, voltei pra Fortaleza e falei: “Bom, vou fazer a faculdade…” E aí tudo muito bem pensado, né! Engraçado… Pensado e, ao mesmo tempo, quando chegou a hora, eu falei: “Tem que mergulhar sem pensar muito!” (risos) Porque é muito difícil você lidar com saudade da família, dos amigos, da cidade… Então eu fiz a faculdade de Comunicação, foi um período incrível, mas que eu tive que me afastar da música porque era necessário. Foi logo depois do Massafeira. Voltei pra Fortaleza e fiz a faculdade, tive a chance de trabalhar em várias áreas da Comunicação: fui redatora da Scala Publicidade, que era uma agência super charmosa, era a agência bacana da época com Augusto Pontes na direção de criação, com Ângela Borges, Paulo Linhares, Gilmar de Carvalho, Silas de Paula, Ricardo Alcântara… Isso era a equipe! Eu fui porque Augusto me levou também e disse: “Mona, se você faz letras, você vai saber fazer anúncio”. E aí trabalhei no jornal O POVO também com a Isabel Ribeiro, Nonato Albuquerque e Luís-Sérgio Santos, a gente fazia o Caderno de Domingo e era muito bom trabalhar com eles. E aí, bom… Em 1984, quando eu terminar a faculdade, eu vou montar um show e vou realmente tentar morar no Rio ou em São Paulo pra realmente tentar fazer a grande paixão da minha vida, que é a música, o sonho de fazer música. Aí fui pra São Paulo e, no primeiro momento, foi um impacto porque uma coisa é você estar em Fortaleza e ser querida e ter um público – e a gente tinha aqui – e o que era mais interessante é que as pessoas se interessavam por ouvir música autoral. Os nossos shows não eram cover, releituras – sem nenhum demérito disso. Mas eram shows autorais, a gente cantava as nossas músicas. Eu, o Lúcio Ricardo, o Pessoal do Ceará que ficou aqui… Porque era sempre essa trajetória, né, do ‘Sul Maravilha’: vai, faz o trabalho aqui e vai pro Rio e São Paulo. Hoje eu acho que não é necessário mais, eu acho. Mas era uma coisa de ter que ir.

OP – Pra você, na época, foi inevitável

essa saída?

Mona – Foi inevitável! Até porque as pessoas incentivavam muito. Eu me lembro que, depois do show no teatro da Emcetur, eu no camarim com Téti, com o grande Geraldo Markan, me lembro demais dele que foi meu professor na faculdade na cadeira de Antropologia, um grande dramaturgo… E o Gegê falando: “Você tem que sair daqui!” Aí você fica assim: “Valha… Tô quase sendo empurrada!” (risos) Mas eu acho que era porque as pessoas ficavam ansiosas de ver que a gente precisava de um reconhecimento nacional. Hoje eu fico pensando: será? Hoje é muito interessante você ver o presente, avaliando toda a sua trajetória. Mas eu nunca pensei nessa coisa de ser superstar, sabe? Vender milhões de discos, ter minha vida invadida… Eu digo isso, inclusive, numa música minha chamada “Identidade Secreta”, que ela fala assim: “Nunca quis pagar o preço da fama/ Nem vender minha alma ao diabo/ Nem sentir a solidão das estrelas/ Ficar sozinha ou mal acompanhada/ Nunca quis comer os frutos da glória/ Nem fazer da vida um livro aberto…”. O que eu sempre busquei foram condições de fazer a minha música, de ter ferramentas pra divulgar a minha música e pra chegar nas pessoas. Porque o grande barato do artista é fazer o público te ouvir.

OP – Você também foi pra fora do País depois, não é?

Mona – Eu cheguei a me apresentar na Alemanha. Isso aí foi no festival Bardentreffen, que já foi no segundo disco. Foi o disco que eu lancei em 1999 chamado “Cenas e Dramas” e, na época, quem articulou essa apresentação foi, inclusive, o Siegbert Franklin porque todo ano ele levava exposições pra Alemanha num convênio Brasil-Alemanha e ele me convidou pra fazer esse festival e foi uma experiência incrível! Cantei em Nuremberg e, depois, em Berlim. Levei a banda do Brasil, foi um trio e foi lindo: a gente tocou numa igreja em ruínas, em Nuremberg, com um público todo cantando com a gente… Uma receptividade que a música brasileira tem na Europa sempre, né. A música brasileira é muito independente de quem seja. Mas se chega com uma proposta bacana de repertório e tudo… Eu fui muito bem recebida em Nuremberg, o público foi muito caloroso.

OP – E o que te fez voltar?

Mona – Na verdade, todo ano eu vinha pra cá. Tenho Fortaleza e São Paulo como as minhas duas cidades no mundo. E aí, quando eu vim pra participar de uma noite dos anos 1980 no Maloca Dragão, eu fui convidada pela professora querida Beth Jaguaribe pra assumir a coordenação do Laboratório de Música. E eu falei: “Puxa!” (risos) Eu não esperava, mas foi uma proposta tão amorosa, afetuosa, de reconhecimento pelo meu trabalho e a responsabilidade que seria de assumir esse trabalho também… Aí eu comecei a pensar: Poxa, tenho uma trajetória realmente muito longa, eu já passei por todas as áreas da música – além da comunicação – e uma trajetória na música que o fato de ter me tornado uma artista independente me fez conhecer e aprender no dia a dia todos os meandros da produção de música. Eu acho, então, que eu posso colaborar com a escola e vai ser um trabalho interessante. Eu diria, hoje, que é um trabalho fascinante.

OP – Como é que você enxerga esse novo momento da música cearense, principalmente em relação aos novos compositores?

Mona – Eu vejo uma cena com muito entusiasmo! Eu fico realmente muito impressionada, principalmente com o talento das mulheres tocando. Nós temos instrumentistas incríveis, de grande talento, compositoras, cantoras… É uma música multifacetada: você tem jazz, samba, uma cena rock fortíssima! Tem umas meninas de um coletivo chamado Girls To The Front, que eu sou fã! Fui uma vez assistir e fiquei fã! Elas agora montaram um palco chamado Mona Gadelha…

OP – E como foi que você recebeu essa homenagem?

Mona – É muito lindo isso porque elas são jovens, mas foram atrás de um livro chamado “Abz do Rock Brasileiro” – acho que foi lançado em 1990 – e eu apareço lá com dois verbetes e eu mesma me surpreendi! (risos) Que barato! Eu achei que as pessoas nem sabiam que a gente fazia rock’n'roll no final dos anos 1970! Na verdade, essas coisas a gente só pôde ter acesso graças à Internet, né… Eu acho que a gente viveu um momento da música independente muito difícil no Brasil porque eu comecei com uma gravadora de médio porte, que é a Movieplay (antes na CBS), então sei como são essas relações, essas dinâmicas com gravadora. Mas com artista independente, no Brasil, até hoje é difícil. Muito difícil. Mas antes da Internet, era mais complicado ainda!

OP – Isso me lembrou o episódio mais recente nas mídias, quando o Milton Nascimento declarou “A música brasileira está uma merda”…

Mona – Sim, sim… Eu acho que o Milton falou uma frase de efeito, então sempre polemiza porque ela generaliza e acho que ele estava se referindo a um determinado tipo de música. Quando ele fala em música brasileira, eu acho que ele está se referindo a uma música que não tem mais o compromisso com a verdade, com a consistência, com a criatividade, com a experimentação… É uma música tipicamente do entretenimento fácil e descartável. E acho que ele estava se referindo a isso. Porque, paralelamente, você tem – eu vou falar de Fortaleza, que é onde eu estou e acompanho, faço questão de ir aos shows – uma geração de música instrumental maravilhosa! Acho que, quando o Milton fala, eu tenho certeza – com toda a admiração que a gente tem – que ele fala dessa música que não chega de um modo geral pras pessoas. A gente tem muito ruído enfadonho, essa coisa repetitiva, essas fórmulas comerciais, eu acho que ele tá se referindo a isso. Mas, assim, é um momento riquíssimo da música brasileira.

OP – Você poderia citar alguns nomes dessa nova geração local?

Mona – Eu fico às vezes preocupada em citar porque eu posso esquecer alguém. Mas vamos dizer que eu vou pegar um pra representar cada segmento. Então, do rock, eu vou pegar as meninas do Girls To The Front, que eu acho um coletivo extraordinário, elas montam o show e elas mesmas se financiam e, agora, montaram a Casa Pagu (Benfica) pelo amor à música e pela vontade de fazer música que comove a gente numa situação tão difícil que a gente tá. A gente tá num momento de trevas, e essas meninas acendem umas luzes de amor que é muito lindo! No chorinho, o Pedro e a Orquestra Popular do Nordeste vêm fazendo um trabalho não só do choro… De compositoras, tem as meninas do Pulso de Marte, que estão aqui na Escola, cantam e compõem, a Luiza Nobel é uma explosão de talento, é uma coisa impressionante como canta e como compõe. Quem mais… Eu teria que fazer uma lista grande! A Brenna Freire toca as cordas de uma forma genial… Então a gente vê um cenário que, ao mesmo tempo que você vê pessoas jovens fazendo o seu trabalho, você tem a nossa musa Téti, que eu gostaria de ver mais nos palcos, maravilhosa sempre, a Ângela Linhares acabou de lançar um disco lindo também e de forma independente… Eu procuro acompanhar tudo! A música experimental do Horizonte Aparente, o duo Sila-Crvs A.O.A., que faz uma música experimental interessantíssima, o Daniel Peixoto maravilhoso, pioneiro da música queer… Se você ver, as próprias Bahias e A Cozinha Mineira (com a Raquel Virgínia, que é nossa tutora) cujo disco novo, “Tarântula”, traduz uma contemporaneidade de uma forma genial! Então assim, é de uma consistência e de uma relevância fabulosa a música brasileira que está sendo feita no Brasil. Agora importa que essa música tem que chegar nas pessoas!

OP – A música e a arte de um modo geral têm sempre sido uma saída perante os desafios da coletividade?

Mona – Sim, sim! A música brasileira foi muito importante pra gente conseguir atravessar toda a década de 1970, até chegar 1985, quando a gente finalmente começou uma nova era no Brasil, depois da ditadura. Então ouvir Raul Seixas cantando “Ouro de Tolo”, a gente lavava a alma! Esse cara tá falando que a gente não tá feliz mesmo, que isso aqui é fake, que essa história de ‘milagre brasileiro’ não era bem assim! Os Secos & Molhados e sua explosão, em 1973, com a explosão de androginia do Ney Matogrosso e a poética, era isso que tocava na rádio e eu acho que isso foi fundamental pra gente segurar. A Louise Bourgeois é que fala “A arte é uma garantia de sanidade”, então eu acho que a arte consegue nos tirar do lugar da tristeza e do desânimo e da desistência e vira uma resistência, né… Fazer arte no Brasil, nesse momento, é uma das grandes formas de resistir porque a gente hoje eu acho que tá lutando é contra a barbárie! A arte é a forma que a gente tem da ligação com o sublime, com a alma, com a espiritualidade. E aí, com esse momento do Brasil, que pegou realmente e principalmente a minha geração – que passou por todo esse período difícil de repressão, da ditadura, de tudo isso – de forma muito impactante! Eu jamais pensava de viver isso, a gente está ainda sob esse impacto. Quando você tem uma indústria cultural que impede as pessoas de pensar, que não permite que as pessoas tenham acesso a isso sublime que eu estou falando, eu acho que ela tem aí uma responsabilidade muito grande porque a arte tem que te fazer refletir também. É um entretenimento? É. Você ouve música pra dançar – dançar é um posicionamento político também, né. Nós estamos hoje o tempo todo nos posicionando politicamente. A gente precisa ter, como a gente diz aqui no Porto Iracema, a poética da existência. A poética de existir, de olhar no olho das pessoas, de se abraçar, de conviver, de aceitar as diferenças… Como é que a gente, no século XXI, ainda tá falando em homofobia, machismo, racismo? Eu pensei que essas doenças seriam erradicadas! Eu costumo dizer hoje em dia assim: eu não aceito mais nenhuma vírgula de machismo. A gente teve que aguentar isso muito tempo, mas agora não dá mais. E acho fabuloso, principalmente, as mulheres mais jovens que vêm assim com uma articulação, com uma garra, com uma presença nas artes, na literatura, na música… Ainda bem que a gente tem esse contraponto. Eu tenho certeza que isso aí vai passar!

OP – E a quantas anda a produção da Mona compositora? Há algum projeto novo à vista, que você possa nos adiantar?

Mona – Boa pergunta! (risos) Eu passei dois anos estudando, fazendo Mestrado, e isso realmente foi uma dedicação. Faz um ano agora que eu defendi a dissertação. Aqui no Porto Iracema eu vivencio e respiro arte 24 horas por dia! Mas eu tô recolhendo meus caderninhos com as letras (risos), montando novas parcerias e, como eu tenho esse gosto muito vasto – eu gosto desde música experimental ao rock’n'roll, ao blues, ao jazz – eu, no meu trabalho, sempre procurei jogar todas essas referências, que é algo bem difícil. Sempre fico pensando em como vou vestir as novas canções, como essas canções vão chegar nas pessoas… Estou me prometendo para o próximo ano terminar esse trabalho todo de parceria com essas pessoas.

VENTILAÇÕES

“TURMA DO ROCK”
Na Fortaleza dos anos 1970, Mona Gadelha pertenceu à chamada “Turma do Rock” ao lado de nomes como Lúcio Ricardo e Siegbert Franklin (ambos da banda Perfume Azul). Foi o publicitário, compositor e agitador cultural Augusto Pontes (1935-2009) que a chamou para participar do Massafeira

JORNALISMO
Mona Gadelha, como jornalista, teve passagens pela agência de publicidade Scala Propaganda e jornais como o cearense O POVO (ao lado de Isabel Ribeiro, Nonato Albuquerque e Luís-Sérgio Santos, escrevendo para o extinto Caderno de Domingo). Em São Paulo, trabalhou como editora, aos 29 anos, no Meio&Mensagem

PETRÚCIO MAIA
Livro que integra a Coleção Terra Bárbara, publicada pelas Edições Demócrito Rocha, Petrúcio Maia (biografia lançada no ano de 2017), de autoria da cantora e compositora, relembra a trajetória do pianista, cantor e compositor, que tornou-se um dos protagonistas do cenário musical do Ceará entre as décadas de 1970 e 1980

FONTE: O POVO ONLINE