Ala de penitenciária concentra os principais líderes de facções do Ceará

Unidade prisional do estado do Ceará

A ala de uma penitenciária em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), concentra as principais lideranças de organizações criminosas do Ceará. Ao contrário do que acontecia desde o ano de 2016, quando houve a separação de detentos por facção criminosa, os internos seguem, agora, sem distinção de unidade. A informação é do titular da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), Mauro Albuquerque, que reuniu os líderes em uma ala distribuídos em oito celas.

Em entrevista ao O POVO Online, Mauro Albuquerque informou que as lideranças de diferentes facções estão presas em oito celas e que as unidades prisionais não possuem mais presos “livres” dentro da penitenciária. Todas as celas estão trancadas e há revista para banho de sol ou em qualquer atividade realizada. O secretário criou uma rotina de vistoriar os detentos e fiscalizá-los de uma maneira que não há espaço para que ele venha a obter um celular vindo de um “rebolo”, por exemplo (rebolo é quando uma pessoa joga o objeto ilícito por cima da muralha do presídio). “Hoje, todo preso está preso. Ou ele está na cela, ou no banho de sol ou na sala de aula, ainda no local de trabalho. Hoje está acima da capacidade, não está superlotado. Superlotado é quando não se consegue colocar mais gente”, relata o gestor da SAP.

Conforme o secretário, desde janeiro houve uma conversa com as esposas dos presos, especificamente direcionada às mulheres que realizariam manifestações a mando das facções crimin Foi avisado, pelos gestores da SAP, que havia um setor de inteligência para identificá-las e quem atuasse a serviço do crime realizando incêndios e depredações na frente das penitenciárias teria a entrada vetada.

 

“Ele (preso) vai permanecer preso onde o Estado determinar. Não tem mais distinção de preso. Algumas unidades eu estou reformando, a CPPL 3 é uma dessas. Os presos estão de um lado e estou reformando para complementar com presos. Todas as lideranças estão na mesma ala, são oito celas e eles estão lá. Bandido é tudo igual. Se você der espaço ele vai dominar”, relata.

Dentre as mudanças destacadas por Mauro está o fechamento das cadeias públicas no interior do Ceará. “O governo economizou mais de R$ 16 milhões com o fechamento de unidades. Isso tem sido direcionado com os investimentos que estamos fazendo. Ampliando e reformando algumas unidades”, afirma.

Entenda como aconteceram as divisões por facções

Em maio de 2016, durante uma greve dos agentes penitenciários, os detentos realizaram um “salve geral”, que resultou em destruição e morte de 14 detentos. Um relatório do Ministério Público afirmou, oficialmente, sobre a presença de três facções criminosas no estado do Ceará, sendo elas o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e uma organização do próprio Ceará, o Guardiões do Estado (GDE). Os presos se articularam por meio do WhatsApp. O uso do aplicativo também serviu para divulgação das mortes dos detentos, que espalhavam terror pela violência. Alguns internos foram mortos e tiveram os corpos queimados dentro de colchões.

A medida que o Estado realizava as obras para recuperar os estragos causados pelas unidades, os detentos iam aumentando o discurso de que iriam morrer caso ficassem junto das facções rivais. A Secretaria da Justiça (Sejus) reagrupou os presos de acordo com a facção a que eles pertenciam. Na época era feita uma triagem, onde o detento afirmava a organização que integrava e era enviado para a penitenciária de acordo com o formulário.

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O período de separação por facções originou uma série de reivindicações, como os televisores por cela e ventiladores. Na gestão do secretário Mauro Albuquerque, para evitar a comunicação externa, as tomadas foram retiradas e, consequentemente, os equipamentos. No período das divisões, os detentos realizavam rebeliões que iam para fora das unidades penitenciárias e resultavam na queima de ônibus e ataques a prédios públicos. Uma dessas ações orquestradas aconteceu com o anúncio dos bloqueadores de celulares.

Após a posse do secretário Mauro Albuquerque, que já e era conhecido pela atuação nos presídios do Rio Grande do Norte, os ataques se repetiram, com a diferença de que os viadutos de Fortaleza e Região Metropolitana tornaram-se, também, alvo dos atentados. Foram mais de 300 ataques de facções criminosas registrados no Ceará.  Veículos particulares também foram incendiados, além dos prédios públicos e dos coletivos. A Força Nacional e agentes de segurança das Polícias de outros estados, como Bahia e Santa Catarina, foram encaminhados ao Ceará.

A entrada de Mauro se deu após a criação da SAP no desmembramento da Secretaria da Justiça e Cidadania (Sejus). Aproximadamente 21 lideres de organizações criminosas foram transferidos para unidades federais e permanecem fora do Ceará. secretário restringiu as visitas nas unidades prisionais e divulgou que as famílias só poderiam entrar nas penitenciárias depois que acabassem os ataques.

A SAP iniciou um trabalho de recuperação das unidades prisionais e os próprios presos, que fazem cursos profissionalizantes, tornaram-se responsáveis pelas obras de pintura e demais mudanças. Outros foram designados à limpeza das unidades. Com o fechamento das cadeias públicas, também em 2019, os presos que estavam em cadeias públicas foram reagrupados em unidades prisionais da Região Metropolitana, que, conforme Mauro, tem uma estrutura de corpo jurídico e assistência para o detento. Também foi instalada a disciplina dentro do sistema.

“O controle total do Estado. Quando o Estado ocupa o ambiente você consegue fazer as outras atividades. Tenho quase três mil presos em sala de aula. Já passou dos mil presos formados em curso de capacitação e mais de dois mil presos dentro da cela. Isso eu dou uma oportunidade do preso para sair do crime”, afirma.

Fonte: O POVO Online