Alunos indígenas aprendem sobre a importância da preservação

OS ESTUDANTES percorreram o rio Ceará e ouviram sobre o território GUSTAVO SIMÃO/ESPECIAL PARA O POVO

Os tripulantes dos oito barcos que transportavam, pelo rio Ceará, integrantes da Escola Indígena Tapeba do Trilho, em Caucaia, tinham engasgo na voz. Lembravam a tentativa constante de retirada das próprias terras e, também, o fato de os não-índios, como eles chamam, buscarem exterminar a cultura nativa.

Na manhã de ontem, o Conversas Flutuantes, passeio de barco promovido pelo Sesc, celebrou o mês do índio. Cerca de 80 pessoas — 40 crianças e adolescentes — buscaram se autoafirmar como integrantes dos primeiros povos do Ceará e marcar o orgulho de ser índio.

Até amanhã, 270 crianças e adolescentes, estudantes de 14 escolas indígenas de Caucaia, vão ter, nos passeios, acesso a uma formação sobre cultura, ancestralidade indígena e cuidados com o meio ambiente. “Saber que aos nossos ancestrais foi negado o direito de andar com a cabeça erguida é o que me dá forças para seguir”, compartilhou Margarida Teixeira Gomes, 50, presidente da Associação dos Professores Indígenas Tapeba. A índia sabe que os professores indígenas têm como missão primordial o resgate da cultura. E é isso que lhe dá forças todos os dias para lutar. “Até porque eu vou me aposentar e quero dar a minha contribuição para que eu possa morrer em paz”, espera.

Oito mil índios tapebas compartilham um território de 4 mil hectares. E o espaço não é só de morada— é de cultivo e de colheita, de pesca, de artesanato. “Dizem que é muita terra pra pouco índio. O mangue e a lagoa fazem parte do nosso território e são lugares sagrados. Os não-índios não entendem que usamos a terra muito mais que para moradia”, enfatizou Margarida.

Em tupi-guarani, língua materna do povo Tapeba, Margarida puxava cantigas que aprendeu com a avó que, por sua vez, aprendeu com a avó. Ela diz que a música é de agradecimento pelo dia que chega. Em coro, as estudantes Ana Júlia Sousa e Isabele Soares, ambas com 10 anos, e Cauã Teixeira, de 11, acompanhavam a senhora em todas as palavras.

“Chamam a nossa gente de comedores de carniça e muitos jovens não querem estudar justamente pela discriminação”, compartilhou o professor indígena Antônio Carlos Matos. A visita ao rio Ceará deveria ser constante para o professor. Ele crê que uma maior vivência sobre as águas — que um dia pertenceram unicamente ao seu povo — trará aos mais jovens uma maior consciência do que é fazer parte do povo. “Esse passeio é muito rico. Muitas vezes os alunos não entendem como é importante ir em busca da nossa identidade. O colégio indígena resgata esse papel”, disse.

Margarida afirmou que os tempos agora não são de muita comemoração. “O não-índio é muito engraçado: quando os portugueses chegaram ao Brasil,queriam vê-los vestidos. Agora, quer os índios nus. Não é assim. Tem 500 anos de opressão nessa história”, lembrou. SERVIÇO 

Projeto Conversas Flutuantes  

Onde: Saída do píer da Barra do Ceará (ao lado do restaurante Albertus), avenida Radialista José Lima Verde, 746, Barra do Ceará. Quando: Hoje e amanhã, às 8 horas e 13h30min. Gratuito.

Fonte: O POVO Online