Após dois meses, morte em creche municipal segue em investigação

CRECHE, que funcionava em imóvel alugado, foi desativada ALEX GOMES/ESPECIAL PARA O POVO

Dois meses se passaram desde que Hannah Evelyn de Andrade Laranjeira, 4, morreu afogada na fossa séptica do Centro de Educação Infantil (CEI) Professora Laís de Sousa Vieira Nobre, no Parque Santa Maria. Na época da tragédia, em 23 de maio, a creche foi interditada e os alunos, realocados na Escola Municipal José Moreira Leitão. Eles permanecem lá, pelo menos, até 2019, quando a Prefeitura prevê concluir a construção de um novo CEI — o antigo é considerado desativado.

A morte da menina dentro de um prédio de responsabilidade da Prefeitura de Fortaleza exige, contudo, mais do que uma nova creche. Principalmente porque, segundo familiares das outras crianças envolvidas no acidente, os estudantes têm enfrentado traumas.Uma mãe contou ao O POVO que a filha, de 5 anos, não consegue sequer ver um buraco sem temer pela própria vida e a de seus familiares. “Ela se desespera. Acha que vai cair, que a mãe vai cair, que a irmã vai cair”. A mãe de outra menina de 5 anos narrou situação semelhante. “Se ela passar por um bueiro, me puxa. Aqui em casa, no quintal, ela também não vai, porque tem medo da fossa”.

Segundo as mães, os três sobreviventes (há, também, um menino) não estão recebendo assistência adequada pela Prefeitura. Além da questão psicológica, Marina Araújo Braz, assessora técnica do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca), afirma que atendimento médico às crianças, que ingeriram água contaminada, foi feito somente logo após a tragédia. “Tem uma com graves indícios de dano à saúde”, indicou a assessora. “A gente não conseguiu mais consultar, mostrar exame. Nos primeiros dias todo mundo quis ajudar. Depois, todo mundo virou as costas”, atestou uma das mães.

A Secretaria Municipal da Educação (SME) respondeu, por sua vez, que as três crianças são acompanhadas pelo Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) Infantil da Regional VI. “Em algumas ocasiões, as consultas tiveram que ser remarcadas ou não aconteceram por desistência dos próprios pais das crianças. A avaliação dos psicólogos é de que isso não compromete a saúde mental delas, considerada satisfatória”, argumentou a SME. Conforme as mães, as desistências foram tanto pelas remarcações como por falta de transporte, feito somente quando um projeto comunitário disponibilizava carro.

O inquérito para apurar as circunstâncias da morte de Hannah foi devolvido pela Justiça ao 30º Distrito Policial, segundo a Polícia Civil. “Para realização de novas diligências e conclusão do caso”, informou o órgão, sem detalhar o porquê. O POVO solicitou o número do processo para questionar à 5ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza o motivo para a devolutiva, mas, por telefone, a assessoria da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirmou que não passaria porque o caso segue em investigação.

 

ANÁLISE TÉCNICA

O laudo pericial do acidente foi feito em parceria entre Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Ceará (Crea-CE), Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias do Ceará e Prefeitura de Fortaleza.

DOCUMENTO da perícia técnica da Prefeitura constatou que não havia como saber da existência da fossa
DOCUMENTO da perícia técnica da Prefeitura constatou que não havia como saber da existência da fossa
Fonte: O POVO Online