As horas finais e o mistério por trás das mortes dos chefões do PCC

Em depoimento à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), as viúvas de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Sousa, o Paca, reconstituíram as últimas horas de vida dos dois chefes do PCC, mortos no Ceará no último dia 15 de fevereiro.

No documento, ao qual O POVO teve acesso, Andrea Soares Maciel, esposa de Gegê havia duas décadas, e Juliana Ponciano de Sousa, casada com Paca por 22 anos, jogam luzes sobre alguns aspectos que cercam os assassinatos dos dois “irmãos” de facção.

De acordo com elas, as horas que antecederam o “voo da morte” de Gegê e Paca foram dedicadas à preparação de uma longa viagem que os traficantes fariam.

Segundo as companheiras, Paca teria contado que o deslocamento levaria de três a quatro dias de helicóptero, a depender das condições climáticas. O criminoso, contudo, não revelaria o seu destino. Por razões de segurança, ele não mencionava sua atual localização, tampouco a de Gegê.

Elas acreditavam, entretanto, que os dois estivessem sempre juntos. Amigos desde a época em que cumpriram pena numa penitenciária de São Paulo, Paca era padrinho de um dos filhos de Gegê. “Os dois se conheceram na cadeia”, disse Juliana.

Um dia antes da viagem, narra a esposa, o marido se encontrou com o piloto do helicóptero no qual iria embarcar com o comparsa. O objetivo era acertar detalhes da mudança. Ela fala que, além de Paca, Gegê e o piloto, havia ainda um quarto passageiro na aeronave, sobre quem diz não saber nada. Esse é um dos pontos cruciais para decifrar o mistério por trás dos assassinatos: quem era o quarto passageiro do helicóptero?

Mãe de dois filhos, um de 12 e outro de três anos, Andrea, a companheira de Gegê, acrescenta que “Rogério não sabia” que estava sob ameaça. No Ceará desde o ano passado, a maior liderança do PCC fora das prisões se estabelecera no Estado, onde tinha comprado imóveis e veículos de luxo e circulava entre praias e parque aquático.

O depoimento de Juliana reitera a impressão de que os dois traficantes tinham rotina tranquila no Ceará. Em seu testemunho, a esposa de Paca admite não ter notado “qualquer mudança no comportamento de Fabiano” enquanto esteve com o marido em um apartamento no condomínio de alto padrão Alphaville, em Aquiraz. Ali, a família comemoraria o Natal e o Ano Novo.

Apesar disso, ela avalia que Paca não tinha a intenção de se fixar na região.

Ele estaria apenas de passagem pelo Ceará. Até cair numa “emboscada”.

Noutro trecho do depoimento, Juliana é mais precisa. Microempresária, ela informa ter chegado à capital cearense no dia “2 de dezembro do ano passado com os dois filhos mais novos”. O mais velho, de 20 anos, chegaria a Fortaleza só depois do Réveillon. As famílias dos membros da facção permaneceriam no Estado até depois do Carnaval. No dia 15, uma quinta, Gegê e Paca fretaram um ônibus e embarcaram esposas e filhos de volta. O veículo, que saiu da Capital nesse mesmo dia, chegaria a São Paulo 72 horas depois. Durante a viagem, Andrea receberia apenas uma mensagem de Gegê. Nela, a foto de uma paisagem de praia e mata vista do alto. À Juliana, Paca escreveria também somente uma vez, via WhatsApp: “Oi, amor. Graças a Deus, tudo na paz”. Dali em diante, os dois casais não se veriam mais. Minutos depois, conforme a principal linha de investigação da Polícia, Gegê e Paca seriam mortos em uma região de mata fechada numa reserva indígena, em Aquiraz. Seus corpos foram encontrados com marcas de disparo de arma de fogo na cabeça e golpes de faca. Num aviso típico dos códigos das facções e da máfia, seus olhos foram perfurados.

TRECHOS DOS DEPOIMENTOS

Eu via ele apenas no final do ano e nas férias dos meus filhos. Um dia antes das mortes, Paca saiu sozinho para encontrar o piloto e acertar a viagem para o dia seguinte

JULIANA PONCIANO DE SOUSA, mulher do Paca

Alguém próximo pode ter feito isso… Rogério não sabia que isso iria acontecer com ele. Temia estar sendo interceptado

ANDREA SOARES MACIEL, casada com Gegê do Mangue há 20 anos. Ela disse que o marido não tinha problemas com Marcola

Eu vim apenas dar um abraço nele…Nunca quis saber disso

RENATA JEREMIAS DE SIMONE,  irmã de Gegê do Mangue, em depoimento à polícia no dia 19 de fevereiro. Ela disse que reconheceu o irmão pelas tatuagens e que não sabia da posição dele dentro do PCC.

Fonte: O POVO Online