Camilo vê “má-fé” em críticas à adesão a escolas cívico-militares

Parlamentares da base aliada e membros do PT têm criticado Camilo por adesão

Numa mensagem sem receptor claro, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), afirmou que o ofício enviado por ele ao Ministério da Educação (MEC), aderindo ao Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares, não pode ser interpretado como guinada rumo a novo modelo educacional, mas como uma sinalização positiva “a um programa que prevê recursos federais para a construção de duas unidades de ensino.” Quem entende desse modo, ele prosseguiu, “desconhece os excelentes resultados da educação pública do Ceará” ou “age de má-fé”

“Meu compromisso é fortalecer cada vez mais nosso modelo cearense de educação pública, aumentar as nossas escolas de tempo integral, investir cada vez mais nos nossos alunos e professores, e melhorar ainda mais nossos resultados. O resto da discussão é guerra ideológica, que não leva a absolutamente nada”, arrematou o governador em nota publicada nas redes sociais.

Exceto Camilo, todos os governadores do Nordeste rejeitaram a proposta, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro ainda durante a campanha eleitoral. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, por sinal, disse ao jornal O Globo ter se surpreendido positivamente com a adesão dois estados ao programa.

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O objetivo do Governo Federal é de instalar 216 escolas cívico-militares até 2023. Para 2020, estão previstas a implantação de 54 unidades. A verba destinada a elas é de R$ 54 milhões, sendo R$ 1 milhão por escola.

A publicização do ofício encaminhado ao Planalto veio após o deputado estadual André Fernandes (PSL) ter criticado a suposta negação do petista à ideia. O bolsonarista classificou a gestão de Camilo como desgoverno. O deputado recuaria e pediria desculpas públicas tão logo fosse apresentado o ofício.

Na Assembleia Legislativa (AL-CE), curiosamente, a proposta ganhou críticas de uma deputada da base do governador, Dra. Silvana (PR), de perfil conservador, e as críticas de um opositor, o deputado Renato Roseno (Psol), ligado a ideias progressistas.

Silvana afirmou que o Governo Federal atende as preces diárias dela. O parlamentar socialista, por sua vez, disse que a adesão contradiz a constatação de que 55 das melhores escolas cearenses estão no Ceará. “E agora adere a projeto que acaba por minimizar todo o trabalho dos professores e tenta elevar o militarismo”, argumentou. Da base de Camilo, o deputado Carlos Felipe (PCdoB) também manifestou estranhamento.

O ainda presidente municipal do PT, Deodato Ramalho, ao O POVO, não poupou críticas ao aceite do correligionário. O ex-deputado estadual disse que “incomoda e gera estranheza”, já que, segundo ele, não somente o PT Nacional é contra, mas toda a comunidade ligada aos setores que sustentam o partido — movimentos sociais e parte da academia, por exemplo. “Torço para que o governador repense e, inclusive, ele foi o único do Nordeste a aderir”, lamentou.

Questionado sobre eventual chamamento do partido ao governador para esclarecimentos, Ramalho respondeu que o poder desta decisão recai sobre a executiva estadual. A reportagem tentou contato com o presidente estadual do partido, Antônio Alves Filho, o Conin, mas as ligações não completaram.

Esta é a segunda vez nos últimos dias que Camilo Santana se depara com discordâncias dentro da própria legenda. No contexto da segunda onda de ataques, último dia 26, o petista disse ao UOL ser favorável a uma legislação antiterrorismo que tipificasse também ataques como os que foram perpetrados há poucos dias. Paulo Pimenta e Paulo Teixeira, deputados federais e membros da Executiva Nacional do PT, se opuseram à ideia. (colaborou Igor Cavalcante)

FONTE: O POVO ONLINE