Chacina das Cajazeiras: mais de 100 tiros foram disparados

Quando técnicos da Perícia Forense do Ceará (Pefoce) chegaram à rua Madre Tereza de Calcutá, nas Cajazeiras, na madrugada de 27 de janeiro, viram o cenário de um massacre.

Cerca de uma hora antes, o que era para ter sido noite de festa acabou em terror, após seis atiradores invadirem o local e deixarem 14 mortos e 18 feridos. Ao final dos trabalhos, peritos haviam recolhido 102 cápsulas disparadas na matança, maior chacina da história do Ceará.

Como há sinais de que a cena do crime foi alterada, número de disparos pode ter sido ainda maior. A informação consta em laudo pericial, obtido pelo O POVO, do inquérito do caso, que ficou conhecido como chacina das Cajazeiras. O inquérito chegou nesta terça-feira ao Ministério Público, que avaliará quem será denunciado pelo crime.

Nas 23 páginas do laudo, peritos descrevem o massacre, promovido pela facção Guardiões do Estado (GDE) na casa de shows “Forró do Gago”. Já o inquérito do caso, que completou cinco meses na semana passada, soma 330 páginas.

Ultrapassando bloqueio de viaturas da Polícia Militar, quatro peritos chegaram à cena do crime na madrugada. Era 1h54min.

Naquela hora, os feridos no ataque já haviam sido encaminhados ao Instituto José Frota (IJF) e dois delegados cumpriam diligências. Após instalarem iluminação artificial, os técnicos reconstituíram passos da passagem da morte pela rua de chão batido.

Uma das primeiras vítimas foi Natanael Abreu da Silva, 25, que trabalhava como motorista do Uber na hora e passava pelo local. Vindo pela rua Irmã Dorothy, próxima ao galpão da festa, os seis criminosos passaram a disparar contra o Ford Fiesta de Natanael no cruzamento com a rua Madre Tereza. Nove tiros atingiram o motorista. Era por volta de 00h40min do sábado.

A julgar por dois ferimentos na mão direita, Natanael tentou desesperadamente se proteger. Os criminosos continuaram atirando, acertando mais dois disparos na cabeça e cinco no corpo. No mesmo local, outra vítima foi alvejada 17 vezes, oito delas nos braços – marcas de defesa. Próximo dos dois, peritos recolheram 34 cápsulas de quatro calibres diferentes.

O massacre cruzou então para a rua Madre Tereza, onde a festa seguia. Na parte externa da casa de shows, oito pessoas foram mortas, entre elas o vendedor de churrasquinho Antônio José Dias e cinco mulheres. Segundo testemunhas, algumas das vítimas não tentaram fugir pois, por não possuírem relação com facções criminosas, acreditavam que seriam poupadas.

A fé das vítimas não encontrou correspondência entre os algozes, com metade das cápsulas recolhidas pela perícia, 51, sendo encontradas nesta área, em frente ao local da festa.

Segundo o laudo, a ausência de convergência dos atiradores indica ainda que boa parte dos disparos ocorreu de forma aleatória ou até “a esmo”, atingindo casas e comércios próximos.

Foi neste local que duas vítimas menores de idade, uma de 15 e outra 17 anos, foram encontradas mortas. Outro menor, filho do vendedor de churrasquinho, que auxiliava o pai, também foi baleado, mas se fingiu de morto e sobreviveu. Segundo relatos, duas das mulheres foram executadas a sangue frio com tiros na cabeça, mesmo após levantarem os braços e, implorando pela vida, negarem qualquer envolvimento com facções criminosas.

De lá, o grupo entrou ainda no salão do Forró do Gago, efetuando mais disparos em pessoas que tentavam fugir pelas telhas de casas vizinhas e perseguindo um grupo que tentava fugir por um portão localizado aos fundos da casa de show. Do outro lado deste acesso, foram encontrados três cadáveres de mulheres. Outro homem, que tentava fugir pelo telhado, também foi baleado e morreu.

Depois do massacre no terreno adjacente à casa de shows, ainda segundo o inquérito, os seis atiradores deixaram o local em dois veículos (um Siena de cor preta e um Golf de cor branca). Segundo testemunhas, eles teriam gritado frases em referência ao número “745” (GDE, na ordem do alfabeto), durante a execução da chacina e da fuga.

As 14 vítimas

ANTÔNIO GILSON RIBEIRO XAVIER, 31: Andava por uma rua próxima da chacina. Foi alvejado por 17 tiros, seis no corpo, três nas costas e oito nos braços.

NATANAEL ABREU DA SILVA, 25: Trabalhava como motorista do Uber quando foi surpreendido pelos criminosos. Recebeu nove tiros, dois na cabeça, cinco no corpo e dois nas mãos.

ANTÔNIO JOSÉ DIAS DE OLIVEIRA, 55: Trabalhava vendendo lanches no local. Recebeu dois tiros na cabeça. O filho menor, que o acompanhava, também foi baleado pelos criminosos.

RAIMUNDO DA CUNHA DIAS, 48: Morto na frente da entrada do Forró do Gago, com um tiro na cabeça, um no ombro e múltiplos ferimentos no antebraço.

RAQUEL MARTINS NEVES, 22: Morta em frente ao portão de uma casa vizinha à festa. Recebeu 15 tiros, cinco nos braços, seis nas pernas, um no corpo, um na cabeça e dois nas costas.

WESLEY BRENDO SANTOS NASCIMENTO, 24: Foi perseguido e morto enquanto fugia pela rua Madre Tereza de Calcutá. Recebeu três tiros na cabeça realizados a curta distância.

MARIA TATIANA DA COSTA FERREIRA, 17: Morta junta com um grupo de jovens que tentava fugir para terreno próximo ao local da chacina. Recebeu um tiro no peito.

BRENDA OLIVEIRA DE MENEZES, 19: Outra integrante do grupo de jovens. Morta com três disparos, um na cabeça, um no ombro e outro no braço.

MAIRA SANTOS DA SILVA, 15: Vítima mais jovem da chacina, foi morta com um tiro na cabeça junto com o grupo que tentava se evadir do local pela rua Madre Tereza de Calcutá.

MARIZA MARA NASCIMENTO DA SILVA, 37: Outra das jovens que tentava se abrigar em residência vizinha à festa. Foi executada com dois tiros na cabeça.

LUANA RAMOS SILVA, 22: Estava no grupo que fugiu para terreno vizinho por um portão localizado nos fundos da festa. Perseguida, foi morta com três tiros nos ombros e três nas costas.

EDNEUSA PEREIRA DE ALBUQUERQUE, 38: Morta com dois tiros nas coxas, foi encontrada também no quintal vizinho ao local da festa.

RENATA NUNES DE SOUSA, 32: Morta com um tiro no abdômen, ao lado de outras duas mulheres que conseguiram fugir por portão nos fundos da festa.

JOSÉ JEFFERSON DE SOUZA FERREIRA, 21: Conseguiu fugir para um imóvel próximo da festa, mas acabou morrendo após ser alvejado por dois tiros na cabeça.

102 cápsulas foram recolhidas pela perícia*

*como havia sinais de que a cena do crime foi violada, peritos apontam a possibilidade de que mais projéteis tenham sido disparados

54 de calibre 9mm

33 de calibre .380 ACP

3 de calibre .38

6 de calibre .40 S&W

2 de calibre .12

35 PERFURAÇÕES de balas foram encontradas na região

67 TIROS pelo menos, acertaram alguma das vítimas fatais

Fonte: O POVO Online