Com a cara e a coragem

A cientista e professora brasileira Joana D´Arc de Souza, 55 anos, conta, nesta entrevista realizada por telefone, que teve 70% da vida composta por “nãos”. Com os outros 30% – ser pobre, mulher e negra -, uma autoafirmação que ressoa em muitos de seus alunos, ela fez a diferença. “Deus escreve certo por linhas tortas, eu encontrei meu caminho, que é ir resgatando vidas através da educação”, traça.

Joana, docente em uma escola técnica do interior de São Paulo e pesquisadora da área de Química, ganhou 80 prêmios na carreira ao tempo em que é a história de um Brasil do quartinho dos fundos, da fome e da resiliência. Aprendeu a ler com a mãe, empregada doméstica, e a não desistir com o pai, trabalhador de curtume desde os 12 anos. Hoje, ensina a jovens pobres ganhar a vida.

O POVO - Gostaria de voltar à sua infância, no interior de São Paulo, anos 60-70. Como era o lugar onde a senhora vivia?

Joana D´Arc Félix de Souza – Eu nasci na cidade de Franca, interior do estado de São Paulo, onde eu moro. Estou morando aqui, de volta. Era assim: uma cidade que foi crescendo, que já tem em torno de 370 mil habitantes, mas era uma cidade menor. Eu nasci numa casa que ficava numa área de um curtume. Meu pai trabalhou, por 40 anos, nesse curtume. Ele começou a trabalhar com 12 anos de idade. Ele era o segundo irmão mais velho, eles perderam o pai deles, aí, minha avó fazia sabão para eles venderem. Ele passava nesse curtume, vendendo sabão, até que, um dia, o dono do curtume ofereceu serviço pra ele e ele começou lá com 12 anos, serviços gerais. Quando ele foi casar, em torno de 26 anos, ele não tinha muita condição financeira, e o patrão dele deu uma casinha que ficava lá na área do curtume, pra ele morar. Foi nessa casa que eu nasci. Eu tenho dois irmãos, que são mais velhos, a minha irmã, que era mais velha, que já faleceu e, hoje, só tem eu e meu irmão. E a minha mãe trabalhava de empregada doméstica. Na casa que ela trabalhava, ela era faxineira. Ela trabalhava de faxineira de segunda a sexta-feira e, no final de semana, ela lavava roupa pra fora. Eu me lembro que, na sexta-feira à noite, as clientes já iam levar as malas de roupa, aquelas trouxas de roupa, aí, ela lavava no sábado e, no domingo de manhã, ela passava. E, no domingo à tarde, íamos nós, os três irmãos, entregar essas roupas. Continuando a minha vida: quando eu tinha, mais ou menos, três anos e meio de idade, a minha mãe mudou de trabalho, foi trabalhar numa casa maior. Ela trabalhava na casa do pai e foi trabalhar na casa da filha, que tinha casado. Era uma casa grande e ela me levava com ela pro serviço. Pra eu ficar quieta, ela me ensinou a ler o jornal que chegava na casa, O Estado de São Paulo. Com três anos e meio, eu comecei a ler. Eu tinha uma caixinha de lápis de cor e eu ia marcando, da mesma cor, as palavras mais parecidas. Eu faço aniversário em outubro, daí, eu completei quatro anos de idade. Eu lembro que era começo de ano, eu falo que eu tive a maior oportunidade da minha vida: um dia, eu com o jornal, lá no fundo da casa, no quartinho, aí, a patroa da minha mãe, que era diretora do Sesi, chegou, foi lá nesse quartinho nos fundos e perguntou se eu estava pintando. Aí, eu disse que estava lendo. Ela perguntou a minha idade e pediu para eu ler um texto, aí, eu li perfeitamente bem. Ela se assustou. E pediu pra minha mãe para me levar no Sesi, durante uma semana. Se eu acompanhasse, a vaga seria minha, na primeira série do Ensino Fundamental. Aí, deu tudo certo e eu comecei a primeira série com quatro anos. Na terceira série, eu mudei de escola, que eu fui estudar numa escola mais perto de casa. Era uma escola pública, mas era bem elitizada. Eu me lembro: a gente percebia, antigamente, que tinha uma separação. As salas A e B eram pessoas de um nível social melhor, aí, ia baixando o nível. E a gente percebia bem se você olhasse no pé da criança (risos). Na classe que eu estava, era um nível social bem baixo. Um dia, na hora do intervalo, tinha uns pedreiros trabalhando na escola, os meninos da minha sala foram lá, mexeram, derrubaram umas coisas. Terminou o recreio, a diretora foi lá na sala e chamou a atenção da sala toda. Ela disse que “pessoas do nível de vocês nunca serão nada na vida, imagina, pais que vêm trazer alunos de bicicleta pra escola nunca serão nada na vida”. Franca é uma cidade onde o forte é o setor coureiro-calçadista. Então, a gente estudava de manhã e o movimento de bicicletas era muito grande porque as pessoas iam pro trabalho de bicicleta. Aí, os pais iam de bicicleta pro trabalho e deixavam os filhos na escola. Aí, ela falou essa frase. Eu lembro que terminou a aula meio-dia, eu fui pra casa, aí, de tarde, quando meu pai saiu do serviço, que chegou em casa, eu falei com ele que eu não ia mais voltar para aquela escola porque tinha acontecido isso. Ele falou assim pra mim: “Você vai voltar, vai estudar e vai mostrar pra ela que você é melhor do que todos eles”. Aí, voltei. Ele nunca deixou eu desistir. Um dia, eu lembro, também nessa escola, no domingo à tarde, nós íamos entregar as roupas e nós tínhamos que passar pelo Centro da cidade. E tinha um coreto que toca a banda municipal, no domingo à tarde. Estava eu e meus irmãos e eu vi os coleguinhas da escola com os pais. E era assim: meu irmão levava as roupas de cama maiores num caixote, que tinha rolamento, e eu e minha irmã levávamos os cabides nas mãos. Eu vi os coleguinhas, fui lá cumprimentar. Que eles viram a gente, os pais, nossa, riram da gente. Riram tanto e nos maltrataram: “Eu não te conheço, não!”. Eu disse: “Eu não vou mais para aquela escola, amanhã, vão rir de mim de novo”. Meu pai falou: “Você vai voltar e vai ser a melhor aluna da sala”. Então, o que eu achei que foi muito importante é que meu pai estudou até a quinta série do fundamental, minha mãe, até a quarta série, ou seja, não tinha estudo, mas tinha sabedoria dele falar pra gente que o estudo era importante pra gente crescer.

OP – Eu li entrevistas que a senhora deu e seus pais são sempre retratados como “o trabalhador do curtume” e “a empregada doméstica”. Além disso, que valores eles têm para a senhora? Quem eram os seus pais?

Joana D´Arc – Olha, eu falo que eles foram, inclusive, os meus primeiros professores. Eles quem me ensinaram a ler e tinham muita sabedoria. Pra mim, eles foram a base de tudo. Eles são a base de tudo o que eu sou hoje. O que eu precisava aprender de bom, de ensinamento, eu aprendi isso com eles. Uma boa educação, eu devo isso a eles.

OP – Uma presença marcante, em alguns momentos da sua vida, foi a fome. A senhora conta que já passou fome, já dormiu com fome. Como é a fome, a senhora poderia descrever?

Joana D´Arc – (pausa) Foi assim: aconteceu, principalmente, quando eu entrei na graduação. Por foi o seguinte: eu passei, com 14 anos, nas três universidades estaduais do estado de São Paulo, que foi USP, Unicamp e Unesp. Aí, escolhi a Unicamp pra estudar. Meu pai foi comigo, para eu fazer a matrícula, e as moradias ainda não estavam prontas, ainda estavam construindo. Eu teria que pagar um lugar pra morar. Aí, vimos os preços de pensionato, ou seja, foi aquele mais em conta, o que dava pra pagar, só que os valores eram assim: incluso o café da manhã, o almoço, o jantar; e o meu não estava incluso nada. E a universidade era período integral, eu almoçava na universidade. Então, era assim: vinha, no bandejão, no almoço, pãozinho, todos os dias, e, geralmente, era uma fruta que vinha – banana, maçã ou laranja. E eu levava a fruta e o pãozinho pra comer à noite. Isso não matava a fome. Na primeira semana de aula, eu já preocupada como eu ia fazer pra comer no final de semana, aí, eu já conversei com as tias do bandejão, expliquei a situação pra elas e perguntei se, toda sexta-feira, elas não poderiam arrumar uns pãezinhos a mais para eu levar pra comer no final de semana. Elas aceitara, então, toda sexta-feira, quando eu passava no bandejão, elas já vinham com uma sacolinha que tinha sete, oito pãezinhos. E essa era a minha comida do final de semana. Não enchia, não alimentava. E não era aquele pãozinho francês, grande; era aquele pequenininho. Dormi várias vezes com fome, mas eu nunca tive coragem de desistir porque se eu desistisse, eu não sei se eu teria outra oportunidade de passar no vestibular novamente. Não sei como seria por isso que eu nunca desisti.

OP - Quais oportunidades, nesse contexto da infância e da adolescência, que a senhora tinha de “ser alguém na vida”? O que a senhora pensava em ser?

Joana D´Arc – Desde criança, que eu nasci no curtume, que eu pensava que eu podia ser química. Porque eu achava bonito o jaleco branco que o químico do curtume usava. Aí, eu falava desde pequena: eu quero ser química, usar o jaleco branco e trabalhar no curtume porque eu achava que a química era só trabalho com couro. Aí, a primeira grande oportunidade que eu tive na vida foi de começar a primeira série com quatro anos de idade. Depois, uma outra oportunidade que eu tive foi já no terceiro ano do Ensino Médio, eu nem sabia que existia vestibular, eu fiquei sabendo o que era vestibular quando eu estava no terceiro ano do Ensino Médio. Os alunos começaram a falar que iam fazer vestibular, que já tinham parentes na universidade, aí, que eu fiquei sabendo. Aí, essa outra oportunidade foi que, um dia, uma das professoras disse: “Olha, meu filho fez cursinho, ano passado, quem quiser material , apostila pra estudar, eu posso arrumar pra vocês, que está lá em casa e vou jogar no lixo”. Eu falei: “Arruma pra mim, que eu vou estudar”. Ela me arrumou o material completo, que ele tinha feito cursinho o ano todo. Aí, eu ia pra escola de manhã, depois do almoço eu estudava até umas dez, onze horas da noite aquelas apostilas. Então, essa foi outra oportunidade que eu tive porque foi esse estudo que me ajudou a passar no vestibular.

OP – Teve algum momento, na sua vida, que foi um divisor de águas? A senhora já falou do seu pai, que lhe dizia para não desistir… Mas, em que momento da vida, a senhora disse: eu vou conseguir?

Joana D´Arc – (pausa) Olha, foi…

OP – Porque uma coisa é o seu pai dizer e outra coisa é a senhora dizer.

Joana D´Arc – Quando eu comecei a enxergar que ia dar certo. Foi assim: no primeiro semestre da graduação, que tava aquela dificuldade danada, toda sexta-feira eu ganhava os pãezinhos, lá pro mês de maio, junho, uma professora falou: “Olha, quem quer me ajudar a organizar o laboratório, na hora do almoço, à tarde, eu tenho uma bolsa, só que a bolsa não é dinheiro. É vale ticket-alimentação e vale-transporte”. Aí, só eu levantei as mãos. E eu fiquei com esses tickets, ou seja, começou a ajudar. Depois, no segundo semestre, ela já arrumou uma bolsa de iniciação científica pra mim, que era, mais ou menos, R$ 450, R$ 500. Quando eu comecei a receber a bolsa de iniciação científica, eu comecei a acreditar que eu tenho um futuro. Eu comecei a acreditar mais na vida. Receber uma bolsa era tipo um salário que eu estava ganhando. Ou seja, um trabalho que eu estava desenvolvendo e estava recebendo por aquilo. Aí, eu comecei a acreditar. Eu acho que foi a partir daí, uma bolsa de iniciação científica, que eu comecei a acreditar.

OP – E como a educação foi mudando o rumo da sua vida? O que a educação ia lhe oferecendo que ia abrindo caminhos e o pensamento?

Joana D´Arc – Eu acho que a educação foi a chave de tudo. Mas a partir da iniciação científica foi que eu comecei a ler mais, a saber mais o que era uma ciência. Eu comecei a conhecer a Química. Então, foi a partir da iniciação científica que a minha cabeça começou a abrir pra química. Aí, eu comecei a decidir que eu ia terminar a graduação e ia começar um mestrado.

OP – Aos quatro anos, a senhora teve uma pessoa que lhe ofereceu a escola. Depois, teve outra pessoa que lhe ofereceu a bolsa. E a senhora está me contando do seu esforço próprio, da sua vontade, realmente, de vencer na vida. A senhora considera que teve mais sorte ou mais esforço na vida pra chegar até onde chegou?

Joana D´Arc – Eu não acredito muito em sorte, não (risos). Eu acredito muito no esforço e na força de vontade. Porque, quando fala em sorte, a pessoa fica naquela dependência: ah, é preciso ter sorte, não vai andar com as próprias pernas. Então, eu acredito no esforço e no enxergar uma luz mais lá na frente.

OP - Na universidade, a senhora vivia com o dinheiro contado. Qual foi o momento mais difícil que a senhora enfrentou para chegar até aqui e como conseguiu vencer isso?

Joana D´Arc - Um dos momentos mais difíceis que eu tive foi durante o doutorado… No mestrado, eu fiz uma pesquisa sobre a Petrobras, aí, no doutorado, eu queria trabalhar na linha de produtos farmacêuticos, mudei de orientador. Esse outro orientador que eu tive falou: “Joana, eu tenho pesquisa com um professor na Universidade de Cambridge, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos e, dependendo do andamento do seu trabalho, você tem condições de ir pra lá, fazendo pesquisa lá durante um ano”. O trabalho caminhou bem, aí, ele disse: “Eu acho que dá para você ir, mas eu preciso te explicar como é a Carolina do Sul. É um dos estados mais racistas dos Estados Unidos, você pode sofrer preconceito, é uma cidade pequena, a maioria da população trabalha na universidade”… Aí, eu conversei com o orientador de lá e ele me disse: “Joana, a gente quer que você venha, mas eu estou lhe explicando para você não sofrer aquele baque, assustar e falar ‘pra quê vocês pediram pra eu vir?’”. Mas, aí, eu tomei uma decisão: Eu vou, pra eu obter conhecimento. E foi o pior ano que eu tive na minha vida porque eu fui invisível nesse ano. Era uma cidade pequena, em torno de 30 mil habitantes. Uma xerox que eu ia pedir, por eu ser negra, as pessoas não atendiam. Durante esse um ano, eu, Joana, consegui tirar xerox umas duas, três vezes. A minha sorte, o bom é que eu tinha, no grupo do meu orientador, cinco europeus e era só com eles que eu tinha amizade. Então, quando eles tiravam xerox, sempre tiravam pra mim. Eu sempre insistia ir na cidade com eles, a uma lanchonete. Eu fui duas vezes, só. Nessas duas vezes, é um horror. Porque os garçons vinham, serviam eles, meus colegas, viravam as costas pra mim porque era negra. Então, eu falo que foi um ano terrível, um ano que eu vivi na invisibilidade. Se eu fosse conversar com alguém, algum funcionário do laboratório, viravam as costas pra mim como se eu não existisse. Mas foi o pior e o melhor ano da minha vida. O pior por causa do preconceito, dessas humilhações que eu passei, e o melhor por causa das publicações: nós publicamos, nas melhores revistas americanas, os trabalhos desenvolvidos no último ano e, a partir dessas publicações, foi que eu tive o convite para fazer o pós-doc em Harvard. Então, se eu tivesse desistido, eu não teria tido o convite.

OP - O que a senhora sentia por não existir, nesses momentos de racismo?

Joana D´Arc - Nossa, é a coisa mais horrível do mundo. Parecia que eu estava morta. Se eu converso com as pessoas, ninguém te enxerga. Era como se eu estivesse morta. Se eu tento falar, as pessoas não olham pra você, não te enxergam. Então, foi o pior momento da minha vida. O pior, mas, no final, fui contemplada. Já foi banido, o racismo lá, a segregação racial, mas é muito forte, ainda, na Carolina do Sul porque é o berço da Klu Klux Kan. O racismo é uma herança que vai passando de pai para filho. Não é uma coisa fácil de acabar, é uma coisa que está enraizada.

OP - Como a senhora usou o racismo para conseguir avançar?

Joana D´Arc - Uma coisa que até eu gosto de falar nas minhas palestras é que eu nunca fiz papel de vítima. Eu sempre usei o racismo, as humilhações, os xingamentos – porque era “cabelo de bombril”, um monte de coisa – como ferramenta pra vencer na vida. E não pra ficar fazendo papel de coitadinha. “Vou vencer, vou vencer”.

OP - Com a projeção, inclusive, internacional que a senhora conseguiu com seu talento, a senhora ainda sofre racismo hoje?

Joana D´Arc - Não, não. Tem uma coisa interessante que aconteceu na minha vida: eu venci o racismo. É claro, tem lugares onde chego e as pessoas olham, mais ou menos, assim… Mas isso não mexe comigo, isso já não me machuca mais, não me altera mais. Por exemplo: eu ministrei uma palestra no TEDx da Unesp, em Bauru, e eu era única negra que estava no evento. A minha palestra era a última e, no final, me aplaudiram de pé. Isso é uma coisa que eu observei: a pouca participação dos negros. Por que isso? O negro sente medo, de se sentir humilhado, sofrer preconceito, então, esse medo impede muitos negros de caminhar. Por isso, que muitos não chegam lá na frente. Não é por causa de incompetência, é por causa do medo de caminhar pra frente.

OP - A senhora tem quase 60 prêmios na sua carreira…

Joana D´Arc - São 80. É porque aquele site que está divulgado, na internet, de maio do ano passado, fala em 56. O octagésimo foi do jornal O Globo, que eu ganhei Personalidade do Ano. Então, tenho 80.

OP - Qual deles a senhora considera mais importante e por quê?

Joana D´Arc - São três que considero mais importantes: o Kurt Politizer, que foi em 2014, quando eu fui eleita a Pesquisadora do Ano, é um prêmio do Conselho Regional de Química, onde eu sou a única professora que ganhou por três vezes – 2014, 2015 e 2017. E o terceiro prêmio é esse Personalidade do Ano – Faz a Diferença, do jornal O Globo. De todos os prêmios, esses são o de maior destaque.

OP - O que acrescentaram à sua carreira, por que a senhora os considera mais importantes?

Joana D´Arc - Isso não é valorização da Joana, acho que isso contribui para valorização da educação. Pra mostrar que a educação, no Brasil, tem futuro. Isso vem coroar a educação e a ciência.

OP - A senhora teve a oportunidade de se integrar em um dos maiores centros de pesquisa no mundo, em Harvard. E voltou ao Brasil em 1999. Como está se desenvolvendo a pesquisa científica nacional nesses últimos anos? O que temos ganhado e o que temos perdido?

Joana D´Arc - Eu voltei na época de um problema de saúde, minha irmã morreu, meu pai, daí, minha mãe ficou muito doente e eu tomei a decisão de estar voltando. Voltei, aquela tristeza danada, o que é que eu vou fazer no Brasil e em Franca… Hoje, eu vejo que foi a melhor decisão que tomei na minha vida, mas, naquele momento, eu estava muito chateada, o que eu vou fazer lá? Daí, uns dois meses que eu tinha voltado dos Estados Unidos, teve um concurso na Escola Técnica, eu fiz e comecei lá, naquele desânimo danado. Um dia, conversei com meu orientador, foi a maior chacoalhada que eu levei na minha vida porque ele falou assim: “Joana, você estudou na melhor universidade do mundo, você aprendeu, tem capacidade de desenvolver pesquisa em qualquer lugar do mundo, independente que esse lugar seja um lugar pequeno ou um lugar grande”. Ele falou: “Tira a bunda da cadeira, faz a diferença e começa a trabalhar pelo bem dessa escola”. Aí, eu já submeti um projeto pra Fapesp, que é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, já fui contemplada com sete bolsas de iniciação científica e comecei a trazer a iniciação científica, que é o tradicional na graduação, para a educação básica e ensino técnico. Aí, foi uma revolução na escola porque ninguém sabia o que era iniciação científica. Eu comecei a explicar pra todo mundo o que é isso e isso começou a mudar a cara da escola. A escola estava passando por um problema grande de evasão escolar, principalmente, no primeiro e segundo ano do ensino médio e técnico, muitos alunos desmotivados. Até porque, na escola, o nível social dos alunos é bem baixo, então, qualquer coisinha era motivo do aluno desistir da escola. Então, isso foi mudando a cara da escola e começamos a desenvolver projetos inovadores porque eu falei: Olha, só que a gente não vai desenvolver coisinha simples, não. A gente vai fazer coisa de primeiro mundo. Já temos patentes. Então, vários alunos que, antes, professores faziam vaquinha para comprar cesta básica, hoje, eles estão recebendo royalties. Isso é muito importante: reduziu a evasão escolar e mudou muito a cara da escola.

OP - E há os investimentos necessários à pesquisa?

Joana D´Arc - Sim. Eu consegui, a maioria dos meus projetos são financiados pela Fapesp. No ano passado, por causa dessa exposição, nós conseguimos financiamento privado, de indústria privada. Então, eu tenho duas, três financiado projetos e também oferecendo bolsa de iniciação científica para os alunos.

OP - Em uma entrevista, a senhora afirmou: “Toda mulher dá sua vida pelo o que ela acredita”. Mas, agora, estamos vivendo tempos de desesperança e desilusão, no Brasil. A quais crenças a senhora ainda dedica sua vida, no que a senhora ainda acredita?

Joana D´Arc - Olha, eu acredito na educação. Acho que a gente está passando por um momento onde a educação está muito desvalorizada, ninguém acredita na educação no Brasil. Eu acredito. E eu acho que cabe a nós fazermos a diferença porque os nossos jovens têm talento, então, a gente tem que aguçar esse talento dos jovens. Só que tem que partir de alguém e eu acho que esse pontapé inicial tem que partir de nós, educadores, a voltar a introduzir essa motivação na escola e isso ir contagiando os alunos.

OP - A senhora citou que a maioria dos seus alunos são pobres, como a senhora também já foi. Que futuros a senhora acredita que eles têm no Brasil dos tempos atuais?

Joana D´Arc - Eu acredito porque uma grande parte dos alunos que fizeram iniciação científica comigo está na universidade e fazendo Química. Apenas dois alunos que não foram para a área de Química. Um dos obstáculos que a gente tinha na escola também foi desconstruir o conceito de que Química é uma disciplina chata. Isso estava muito enraizado na cabeça dos alunos, aquele pavor de Química. Ou seja, depende da forma como você trabalha, aí, o aluno começa a gostar daquela disciplina. E quando eu falo da realidade da vida, a gente teve um caso de um pai que veio falar comigo, em 2016, que a filha dele, começou a fazer iniciação científica comigo e ele me disse que ela era garota de programa e parou com isso porque queria ser pesquisadora. Ano passado, em 2017, uma mãe veio falar comigo que o filho dela, que tinha começado a fazer iniciação científica comigo, saía da escola e ia pro tráfico, era traficante, 16 anos. Também quis largar dessa vida, mudou de bairro para não encontrar mais os companheiros. E esses dois alunos, no final do ano, entraram em Química na Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Então, você vê que a educação conseguiu transformar a vida desses meninos. Outra coisa interessante, no ano passado, eu dei uma palestra, aqui, na nossa antiga Febem, que é onde ficam presos os meninos até 18 anos, e eu mostrei pra eles o que os alunos da escola, da idade deles, faziam. Aí, agora, no mês passado (em março. Esta entrevista foi realizada em abril), a psicóloga de lá me ligou dizendo que tem três garotos que já estão prestes a sair e eles querem vir estudar na escola e fazer projeto comigo. Desses três, parece que um matou, um roubou e o outro era traficante. Então, eu falei: gente, esse vai ser o maior prêmio que eu recebi na minha vida, conseguir mudar a cabeça desses meninos. Pensar no futuro, ganhar a vida, isso é muito importante.

OP - Ensinar é essa doação do tempo e da história que a senhora tem. Mas qual é o peso de ser professora?

Joana D´Arc - (pausa) Olha (risos)… A gente tem que insistir um pouco porque fazer iniciação científica com quem está na graduação é diferente porque o aluno já foi selecionado, passou por um vestibular, está começando uma profissão… Agora, trabalhar com iniciação científica, aqui, na parte de baixo, onde o aluno não é obrigado a fazer iniciação científica, não tem um compromisso, a família é desestruturada – o que contribui muito para baixar o astral dos alunos… Então, é muito difícil fazer iniciação científica na parte de baixo, ou seja, é uma insistência grande.

OP - Ser mulher, ser negra, ser de origem pobre são marcas da sua biografia. A senhora encontrou seu lugar no mundo?

Joana D´Arc - Encontrei. Inconscientemente, acho que esse era meu caminho, hoje eu sou realizada. Deus escreve certo por linhas tortas, eu encontrei meu caminho que é ir resgatando vidas através da educação. Esse é o meu caminho e é o que eu quero continuar fazendo.

OP - A senhora experimentou, viveu três palavras até aqui: a solidariedade, a educação e a força de vontade. Na sua opinião, o que muda, verdadeiramente, a vida de alguém?

Joana D´Arc - (pausa) Dessas três?

OP - Por sua experiência, pelo o que a senhora já experimentou…

Joana D´Arc - (pausa) Eu acho que a educação e a força de vontade. Porque a educação vai te mostrar os caminhos e você tem que ter a força de vontade para trilhar todos esses caminhos, que não são fáceis.

OP - Mas sozinho dá para ir?

Joana D´Arc - (pausa) Olha (risos), eu tive algumas oportunidades, que abriram as portas. Mas todas as portas que abriram eu entrei por elas. Porque, às vezes, a pessoa está tão desanimada que abre uma porta e ela não consegue enxergar aquela porta que abriu. Mas eu acho que tem como, sim. Se a gente precisar de ajuda, a gente pede. É como quando eu estava desesperada, como é que eu vou fazer pra comer no final de semana, e eu pedi os pãezinhos. Muita gente, hoje, me pergunta: você não teve vergonha de chegar e pedir? Se eu não pedisse, eu ia passar fome!

OP - A senhora considera a sua vida extraordinária?

Joana D´Arc - Não. Eu acho que o que eu fiz qualquer um pode fazer. É enfiar a cara e enfrentar todas as dificuldades da vida.

OP - Mesmo ouvindo todos os nãos que a senhora ouviu, todos os risos de escárnio?

Joana D´Arc - Sim. Até hoje, dos cem por cento que eu ouvi na minha vida, 70% foram nãos. Apenas 30% de sim. Mas eu fiz desse sim aquela maionese, né? Fiz a diferença com esse sim.

OP - E, hoje, os estudos são a maior parte do seu tempo?

Joana D´Arc - É. Nessa Escola Técnica, no Estado de São Paulo, meu contrato é de 40 horas semanais, eu sou professora, sou pesquisadora. Nós somos vinculados à Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado, então, temos plano de carreira. Eu acho que é pra eu estudar e mostrar para esses alunos que tem jeito, sabe? Que a vida deles pode mudar. Não é fácil, sofrer vai sofrer, mas nunca desistir.

OP - E quais são suas leituras e seus prazeres nas suas folgas?

Joana D´Arc - (risos) Eu leio muita coisa de Química mesmo. Por isso, acho que tenho um pouco de facilidade na hora de montar os projetos porque eu leio muito.

OP - Mas e a folga, passear por Franca…

Joana D´Arc - Ah, eu tenho meus cachorros, cuido de uns cachorros de rua. Tenho 30.

OP - Trinta?!

Joana D´Arc - É. Tenho uma chácara, então, a grande parte é cachorro abandonado, que foi atropelado. Então, eu acolho. Esse é o meu hobby.

OP - Há quantos anos tem esse hobby?

Joana D´Arc - Já tem uns dez anos.

Carreira

A química e cientista Joana D´Arc Félix de Souza nasceu no dia 22 de outubro de 1963, em Franca (São Paulo). É docente da Escola Técnica Estadual Professor Carmelino Correia Júnior, em Franca, há cerca de 15 anos. Estudou na Universidade de Campinas (graduação, mestrado e doutorado) e fez pós-doutorado em Harvard (Estados Unidos). Conta 80 prêmios na carreira.

Química

Além do trabalho, a Química também lhe ocupa a folga. Entre risos, a pesquisadora revela que as leituras e os prazeres fora das 40 horas semanais de docência estão relacionados a “muita coisa de Química mesmo. Por isso, acho que tenho um pouco de facilidade na hora de montar os projetos. Porque eu leio muito”.

Cachorros

Um de seus raros refúgios é uma chácara, em Franca, onde Joana mantém um hobby há dez anos: “Tenho meus cachorros, cuido de uns cachorros de rua. Tenho 30… A grande parte é cachorro abandonado, que foi atropelado”.