Combate às facções

NOS BAIRROS dominados pelo tráfico, as facções impuseram códigos de conduta

Autoestima baixa e falta do sentimento de pertencimento nos assentamentos precários de Fortaleza, onde facções criminosas modificaram o cotidiano, são apontadas como pontos de partida de uma discussão sobre qual o caminho a ser percorrido para se ter de volta a cidade e a paz pública. Quem instiga é um articulador social acostumado a cruzar as comunidades do Grande Jangurussu, uma área atravessada pelo tráfico de drogas.

Boa parte dos personagens dessa reportagem, iniciada no último sábado com a Chacina de 14 pessoas no bairro Cajazeiras, continuará invisível. Não por gosto ou escolha, mas por segurança, vez que estão em constante deslocamento nos territórios de risco onde desenvolvem trabalhos sociais.

Elevada autoestima, me responde o agente social, tem também a ver com o lugar onde se mora. “Pergunte a qualquer morador do Babilônia ou do Gereba se há algum equipamento no bairro (Barroso II) que lhe dê orgulho? A resposta, quase certa, será negativa”, constata nosso interlocutor. Na opinião dele, isso funcionaria como blindagem social à instalação do tráfico e, hoje, do fenômeno das facções. A rotina ali, quando se passa para o espaço público, deveria ser “abraçada pelo prazer de se estar na rua”. Não é assim que os dias correm, diz o agente comunitário ouvido pelo O POVO. Diferente do miolo abastado de Fortaleza, onde as pessoas se “orgulham das praças adotadas, de um Centro Dragão do Mar, ou têm prazer com a Praia de Iracema redescoberta para se nadar, fazer esporte, ou apenas para os encontros. No Gereba, o que se tem?”, pergunta. O ponto de vista do articulador social do Grande Jangurussu é semelhante ao de um agente de cultura do bairro Curió. Lugar também marcado por uma chacina com 11 executados. Crime que teria sido praticado 44 policiais militares denunciados pelo Ministério Público do Ceará.

O jovem, que teve de desistir da pintura do cabelo loiro para não ser confundido com integrantes do Comando Vermelho, aponta que em seu bairro “fora a escola pública há apenas os campos de futebol como espaço coletivo de convivência. Nem todo mundo gosta de futebol. E aí, o que há de oferta para outras pessoas?”, observa. A sorte e uma estrutura mínima de família, conta o jovem, o transformou em exceção entre os contemporâneos de infância. Boa parte deles engrossou o tráfico e perdeu a vida. A porta que se abriu para ele, num bairro sem perspectivas de transformação para os moradores, veio de um projeto da Secretaria da Cultura do Estado, financiado pelo Fundo Estadual de Combate à Pobreza (Fecop). O adolescente virou agente de Cultura e se profissionalizou na produção de arte. “O Estado não entendeu que a saída não é com a polícia nem com o Ceará Pacífico. Qual o jovem vai querer se engajar e defender um modelo que ele não construiu? E em vez de incentivar o que se produz na periferia, criminaliza. Como foi o caso dos sarais realizados pelos coletivos e que Estado e Prefeitura quiseram estabelecer regras e horários para limitá-los. A gente quer ser ouvido antes ”, questiona.

Há pelo menos dois problemas que, atualmente, criam obstáculos na relação com o Estado. Eles não rejeitam os programas e projetos do poder público. Porém reforçam a necessidade de protagonismo das comunidades na concepção e execução dessas ações. Nesse cenário atual de domínio das facções, argumentam, por exemplo, a impossibilidade de aproximação com projetos oficiais e mesmo com os agentes de segurança. Qualquer movimento nesse sentido pode ser interpretado como “colaboração”, o que os tornam alvo das ameaças das facções.

Um educador social do bairro São Cristóvão aponta que o “cuidado com as crianças e os pedaços de família seria o grande mote para a transformação da situação de violência e o futuro da periferia de Fortaleza”. Há quatro anos, ele iniciou um trabalho em um dos campos de futebol da comunidade com financiamento do projeto Diaconia – que reúne 11 igrejas evangélicas. O problema é que este ano não haverá mais recurso. “Acabou o dinheiro”, diz.

O futebol, explica o educador social, é uma das portas de entrada para se trabalhar cultura de paz, homofobia, violência contra a mulher, alcoolismo e outras questões identificadas pelo agente comunitário no cotidiano das crianças e adolescentes. O educador social do São Cristóvão lida, principalmente, com filhos de pais presos e que não possuem o registro de nascimento.

Atualmente, são 20 meninos e meninas. “É muito pouco diante do tamanho do problema. Mas é o que tem”. Para ele, faltam prioridades e estratégias do Estado e Prefeitura para a área social nas zonas pobres ou miseráveis. Nos locais mais carentes, constata, estão as piores ruas, a iluminação mais precária, o pior transporte público e as piores calçadas. “Tudo isso gera mais desigualdade, delinquência, descuido, revolta e comportamento não coletivo”, afirma.

Mas, segundo o educador, “falta, principalmente, o envolvimento da sociedade civil. Parece que o problema não é também de quem ganha milhões com a Fortaleza e o Estado. Ou se senta todo mundo para uma repactuação social ou teremos, daqui a pouco, os cartéis da droga e da morte definindo, mais ainda, qual tipo de Cidade eles querem”, avalia.

Fonte: O POVO Online