Comunidades inteiras são bloqueadas por moradores buscando proteção

NA RUA Aldaci Barbosa (Cidade dos Funcionários), controle pela guarita MATEUS DANTAS

A estratégia de restringir o acesso de transeuntes e veículos às ruas sem saída, na tentativa de fugir dos assaltos e furtos, é registrada nas diferentes áreas da Capital. Na avenida Professor José Arthur de Carvalho, na Lagoa Redonda, uma comunidade inteira, conhecida como “Suvaco de Cobra”, chegou a ter a entrada controlada por um vigilante com cancela.

 O único acesso às residências se dá pela estreita travessa Manuelito Costa, onde apenas um veículo trafega por vez. São 300 metros de um trajeto ladeado por altos muros até as ruas e vielas que integram o perímetro resguardado, abarcando 80 imóveis, entre casebres, duplex, casarões e sítios. Porém, por falta de pagamento, a barreira foi retirada.

“Essa cancela era a maior maravilha do mundo. Antes, era o maior sufoco aqui. O cara passou seis meses aqui e nenhum assalto aconteceu. Era R$ 40 por casa. Depois, pararam de pagar e ele foi embora. Agora, quando minha filha e esposa vão descer na parada, tenho que vir buscar. Mas eu sirvo de quê”, reclama Manuel Mesquita da Silva, 62, vendedor ambulante.

Poucos metros adiante, às margens da Avenida do Recreio, a Vila Vitala dispõe de portaria há um ano. Conforme a dona de casa Sônia Maria Lima Nascimento, 49, após episódios de violência, moradores das 90 residências decidiram, por meio de um grupo no Whatsapp, fechar a via. A estrutura, porém, é bem mais complexa.

Cinco seguranças se revezam no serviço, ocupando uma guarita erguida na rua Edilson Júnior. As atribuições dos funcionários incluem anotar placas, horários, motivo e quantidade de pessoas que entram ou saem da vila. “A gente paga para ser vigiado. Essas facções tomaram Fortaleza e a gente se protege como pode. Só espero que a Prefeitura não venha com história de multa”, defende Sônia.

Já no bairro Salinas, a rua Edmundo Rodrigues, que existe nos mapas do Google, já não consta no mapa da Prefeitura de Fortaleza. Virou condomínio fechado, identificado pelos números 300 e 320. O residencial existe há mais de 20 anos, segundo conta o porteiro Aldemir Romão, 47.

“Na verdade, esse local foi criado para ser um residencial. Só que um morador daqui, bem antigo, há muito tempo, pediu para abrirem uma rua. Depois, os moradores se reuniram, criaram uma associação e entraram com um pedido na Prefeitura, solicitando a mudança. Temos tudo documentado. Já veio fiscalização e tudo”, disse. Já o Município afirmou ao O POVO não ter registro de casos do tipo.

No Cocó, a rua Caetano Cavalcante, identificada no mapa da Prefeitura como Rua G, conta com duas cancelas automáticas, restringindo a entrada e saída de veículos. A via conta até com faixa de pedestres elevada e dá acesso a três condomínios de luxo e estabelecimentos comerciais. Os dois seguranças do local, porém, se recusaram a falar ou indicar alguém para responder às perguntas do O POVO. (Thiago Paiva)

NO RIO DE JANEIRO

1. A restrição de acesso a vias públicas causou polêmica na cidade do Rio de Janeiro, em abril do ano passado. Com autorização da Prefeitura, a Vila Cosmos, bairro de classe média, na Zona Norte do município, passou a ter os acessos controlados. Para entrar, não sendo morador, é necessário autorização.

2. A medida foi permitida pelo decreto municipal 43.038, publicado por Marcelo Crivella (PRB). O texto prevê, em um dos artigos, que o acesso de pessoas poderá ser proibido nas vias controladas das 22 horas às 7 horas.

3. Após a aprovação da lei, 25% dos moradores da Vila Cosmos contrataram uma empresa de segurança privada. O investimento custou R$ 250 mil, cerca de R$ 103,60 para cada proprietário de imóvel participante.

4. A partir daí, foram colocadas cancelas com controle remoto, barreiras e obstáculos impedindo também o acesso de motocicletas, além da vigilância 24 horas.

5. Em Fortaleza, a segurança feita nesses locais é considerada irregular. A atribuição de segurança e policiamento ostensivo nas ruas é de competência exclusiva da Polícia Militar. Já os vigilantes podem atuar somente no interior dos patrimônios privados. O POVO apurou que o valor pago pelos moradores a esses profissionais varia entre R$ 50 e R$ 150.

Fonte: O POVO Online