Crianças são foco de vacinação para conter surto

Dia D de mobilização da Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite e Sarampo.

Dois bebês morreram vítimas do sarampo no último mês. Agora são três mortes pela doença em 2019 no Brasil, sendo a primeira de um homem. Todas em São Paulo, onde 98% dos 2,3 mil casos registrados no País foram confirmados. A principal estratégia para que a doença altamente transmissível não se dissemine é proteger as crianças. No Ceará, 65 mil bebês, entre seis e 11 meses de vida, precisam ser imunizados, mesmo não estando dentro do calendário vacinal para a faixa etária.

As novas mortes registradas em São Paulo foram de uma menina de 4 meses, residente de Osasco, e um garoto de 9 meses, na capital paulista. Ambos apresentaram pneumonia, uma das complicações do sarampo. Crianças menores de um ano ficam ainda mais vulneráveis à doença. Por isso são foco. No Ceará, o primeiro caso de sarampo este ano foi confirmado em um adulto. Um caso importado, quando o doente é infectado em um estado e apresenta os sintomas em outro. O que sugere que o Ceará não tenha uma cadeia de transmissão.

Para fechar a maior parte das lacunas de transmissão e assegurar ainda mais a cobertura vacinal, o Ministério da Saúde (MS) criou a dose zero da vacina contra o sarampo. Definindo que mesmo crianças antes do primeiro ano de vida, idade na qual se aplica a primeira dose, precisam estar imunizadas. Conforme dados do MS, dos 12 óbitos registrados em 2018 por causa da doença, 10 eram crianças até cinco anos.

Entre o total de casos confirmados este ano, 23% foram em crianças nesta faixa etária, formando o maior coeficiente de incidência: 38,3 a cada 100 mil habitantes.

“É a população mais vulnerável. Sistema imunológico enfraquecido, e com hábitos que facilitam a transmissão. Globalmente, uma das principais causas de morte em crianças é o sarampo”, explica o infectologista pediátrico do Hospital São José (HSJ), Robério Leite. Ele detalha que o calendário vacinal define a imunização a partir dos 12 meses porque o sistema imunológico mais amadurecido garante uma melhor resposta. “Mas algumas crianças conseguem responder antes, daí a estratégia desse momento”, frisa.

Nos anos de 2014 e 2015, quando Ceará e Pernambuco apresentaram um surto de sarampo, com 916 casos só no Estado, foram identificados bolsões com falhas de imunização. Exatamente envolvendo crianças. Após mais de três milhões de doses aplicadas na época, hoje o Ceará tem 95% de cobertura vacinal. Esse é o percentual preconizado pelo MS e considera que, mesmo se 5% do público alvo não se soroconverter após a imunização, os 95% com sucesso propiciam o que é chamado de vacinação de rebanho. A doença não consegue se propagar.

“Antes, o que se tinha era apenas importação de casos. A pessoa ia para o exterior sem estar vacinada e voltava com a doença. Mas como tínhamos uma boa cobertura vacinal não tinha como haver transmissão”, lembra Robério. O sarampo, conforme o médico, é apenas a ponta do iceberg quando se considera a importância de manter a população, principalmente as crianças, imunizada. A doença aparece primeiro porque é de alta transmissibilidade e deve servir como sinalizador. “Se uma atitude não é tomada, voltam outras doenças, como difteria, caxumba, poliomielite”, alerta.

As 65 mil crianças identificadas como público alvo da dose zero constam no sistema de nascidos vivos no Ceará nos últimos meses. “Elas já são contempladas com outras vacinas, agora precisa prever essa também”, frisa a supervisora do Núcleo de Imunização da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Ana Rita Cardoso. No Estado, mensalmente, 47 mil doses de vacina contra sarampo são aplicadas no público já previsto pelo calendário (crianças com 12 meses e com 15 meses de vida, jovens e adultos entre 12 e 29 anos).

A especialista ressalta ainda que, nesse momento, são as crianças com até cinco anos que mais precisam estar protegidas. “São aquelas que nasceram depois de 2015, quando houve o surto, e podem não estar vacinadas. Elas têm mais incidência de morte, casos graves e complicações pós-doença”, explica. Ana Rita cita pesquisas que mostram a baixa sobrevida de crianças que são infectadas por sarampo antes do primeiro ano de vida. “Muitas vão à óbito até os cinco anos, porque a doença deixa sequelas cardíacas, neurológicas…”.

(Com agências) – O POVO Online