Desarticulada e sem dinheiro, facção estaria atacando em represália

FORTALEZA, CE, BRASIL, 24-09-2019: Ônibus da Banda de Forró Balancear, destruido pelo fogo, já chegando na ponte do Rio Ceará, em Caucaia. Voltam novamente  ataques em Fortaleza, a ônibus e repartições. (Foto: Mauri Melo/O POVO).

Alguns órgãos, nós mesmos, ainda estamos para entender o que de fato está causando isso aí, esses ataques”, revela uma fonte muito bem informada sobre a rotina das facções que atuam no Ceará. Ele é um dos que buscam decifrar o que tem motivado a onda mais recente de atentados na Capital e Interior. Pede para evitar sua identificação e continua: “Alguns acham que é o enfraquecimento dessa facção. Eles estão desesperados. Principalmente na questão financeira da organização. A falta de comunicação com os chefes, transferidos, isolados, repercute no negócio deles. Isso enfraqueceu as bases. Estão sem drogas, estão sem comércio”.

Ataques no Ceará partiram da GDE; facção criminosa está enfraquecida e sem apoio de rivais

PF desarticula lideranças de grupo responsável por ataques em Fortaleza

A fala mira o momento da facção Guardiões do Estado (GDE), que fraqueja numa crise – ainda com sinais de temporária, mas significativa. Desarticulado pelas transferências de seus cabeças dentro do sistema carcerário, o grupo criminoso teria tido um baque nos negócios. A facção vem sendo responsabilizada pelas ações incendiárias disparadas desde o dia 20 de setembro. Seria a represália. Já passam de 100 os registros de atentados contra prédios públicos, privados, veículos oficiais ou de particulares, indistintamente.

Em janeiro de 2019, quando uma outra série de ataques completava uma semana, 36 chefes de facções foram transferidos do Ceará para penitenciárias federais. Deles, 15 eram da GDE. Nesta segunda-feira, até o início da tarde, a Justiça Estadual, nas Varas de Execuções Penais, de Delitos de Organização Criminosa e de Tóxicos, ainda analisavam, juntas, mais 12 pedidos de transferências feitos pelo Ministério Público Estadual, municiado por relatórios técnicos emitidos pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). A cúpula ainda mais afetada.

Siciliano, homem que ordenou os ataques no Ceará em abril, é transferido para presídio federal

“Isso tem saído bastante caro para a GDE. Os chefes estão longe, presos em outros Estados, em outras cadeias. Isso gera mais despesa para eles”, descreve um investigador, que também não quer ter o nome revelado. “Eles radicalizaram nos atentados porque estão enfraquecidos”. No início do ano, a motivação principal teria sido a mudança nas regras de convívio dentro dos presídios. Nos primeiros dias de ataque desta série atual, mais de 500 presos foram remanejados entre cadeias do sistema estadual. A medida embaralhou a rotina dos faccionados.

Na Capital, a GDE rivaliza com o Comando Vermelho, originada no Rio de Janeiro, e mantém parcerias com o Primeiro Comando da Capital (PCC), nascido nas cadeias paulistas. O acerto principal com o PCC é na aquisição das drogas comercializadas – a maior fonte de arrecadação. É o PCC que fornece toda a cocaína e a maconha vendidas pela GDE. É assim que o PCC, com o contingente menor, se mantém fortalecido.

As substâncias chegam ao Ceará pela chamada Rota Caipira: atravessam a fronteira Paraguai-Mato Grosso do Sul e vêm por estradas até o território cearense. Os inimigos do CV recebem a coca da Rota do Solimões, que sai da Colômbia e Venezuela e entra no Brasil por Manaus e Belém, depois cruzando o norte em caminhões até o Nordeste.

O rigor disciplinar dentro das prisões estaduais, estabelecido no início de janeiro sob ordem do secretário Mauro Albuquerque, da SAP, também teria cortado o dinheiro do comércio ilegal que funcionava dentro das unidades. “Foi cortada a venda de alimentos, de cigarro, de celular, de drogas. Isso causou uma revolta muito grande neles”. Um ventilador na cela gerava R$ 50 para a facção ou a fidelidade do integrante. As famílias pagavam ainda outras despesas pela garantia da proteção nas alas do sistema.

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Facção tem perfil muito jovem e intempestivo

Em apenas quatro anos de existência, a GDE é considerada a organização mais numerosa no crime do Ceará. São mais de 20 mil integrantes dentro e fora das cadeias. Atualmente, seriam de seis a sete presos da facção para cada grupo de dez internos do sistema prisional cearense. O recrutamento é feito por dívidas de drogas ou promessa de poder nas comunidades.

A principal fragilidade da GDE estaria exatamente no perfil de seus membros: jovens demais, considerados desorganizados, com atuação setorizada nas ruas da cidade. São tidos como menos estratégicos e imaturos.

“Eles gostam de seguir ordens, são mais meninos, muito novos. São diferentes do pessoal do PCC ou do CV. O PCC não é de mandar atacar ônibus, por exemplo. Não faria assim”, comenta um oficial de alta patente da Polícia Militar, também pedindo o anonimato. Numa descrição dele, gostam de aplicar o terror e expor nas redes sociais. (Cláudio Ribeiro)

 

Segunda é o dia com menos ataques desde início da série

O Estado chegou ontem ao 11º dia seguido de ataques, mas o número de ações criminosas foi o menor desde que a série começou, em 20 de setembro último, conforme levantamento de O POVO. Até o fechamento desta edição, apenas duas ações haviam sido registradas nessa segunda-feira, 30.

No bairro Passaré, um caminhão que estava estacionado em frente à casa de seu proprietário foi incendiado durante a madrugada. O fogo atingiu toda a cabine do motorista, que teve perda total. O dono do veículo, Mário Jorge de Souza Gomes, estimou um prejuízo de mais de R$ 15 mil. Ele disse ter adquirido o veículo há apenas dois meses. Até domingo, 29, realizava manutenção nas peças para começar a transportar calcário para empresas siderúrgicas do Pecém, em São Gonçalo do Amarante. Além de danificar o veículo, o incêndio queimou a fiação da rua. Os moradores ficaram sem sinal de telefonia e internet.

Já em Irauçuba, a 154 km da Capital, o Galpão dos Feirantes foi atacado, gerando um incêndio de pequenas proporções, debelado pelos vizinhos do estabelecimento com auxílio da Guarda Municipal. Conforme o delegado Francisco José Portela Neto, os responsáveis são duas pessoas que estavam em um carro. A dupla arremessou um artefato explosivo e fugiu.

Conforme balanço da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), até o final da tarde de ontem, haviam sido registradas 113 ataques. O número de presos chegou a 147.

Ontem, em cerimônia no Palácio da Abolição, o governador Camilo Santana (PT) voltou a dizer que o Estado não iria retroceder. “Estamos desmantelando o crime no Ceará. O sistema prisional cearense hoje é um sistema sem comunicação, disciplinado, com muito rigor. O Ceará será modelo na questão do sistema prisional para o País”, afirmou. Segundo ele, “quase todos” os envolvidos nos ataques já foram presos, mas as prisões continuariam. “Todos irão pagar por essas covardias que estão sendo causadas à população do Ceará”.

 

Origem

GDE é uma sigla local, surgiu no Conjunto Palmeiras, ao sul do mapa da Capital. Um chamariz no recrutamento é a ausência da “cebola”. É como chamam a mensalidade cobrada pelas facções. A “cebola” do PCC serve para pagar banca de advogados, por exemplo.

FONTE: O POVO ONLINE