Dois militares no Ceará foram internados por dependência

Drogas nas Forças Armadas

José, de 20 anos, entrou no Exército em 2017. Já havia se engajado na Força para seguir a carreira militar. Sua dependência química atrapalhou. Consumia cocaína diariamente, também dentro do quartel. Era a droga mais fácil de disfarçar. Evitou somente nos meses de internação obrigatória. Não levava maconha porque o rastro seria visível, mas sempre tragava dela em casa. Diz que a primeira vez foi aos 12 anos. Em outubro do ano passado foi afastado do meio militar para internação. Mas já havia alguns meses que passara a usar crack – que chama de seu “fundo do poço”. Vinha perdendo peso e faltando o expediente com frequência fora do normal. Está internado.

Expedito, 19 anos, ingressou nas Forças Armadas no início de 2018. Nunca foi muito falante no grupo. “Era na dele” – descreve um soldado da mesma turma. Cumpria as obrigações da função e sempre preferia ficar só, recluso. Havia a suspeita de que pudesse ser uso de droga. Em agosto, teve dias de faltas seguidas. O comandante da unidade militar, major Fulgêncio Castro e Silva, foi alertado da situação. Chamado pelo oficial, confirmou o uso regular de maconha. “Quando soubemos que ele usava substância ilícita, até nos surpreendeu”, disse outro colega de quartel. Após a licença para internação e tratamento, Expedito deu baixa militar.

Os nomes são fictícios. Os dois rapazes são protagonistas dos casos recentes mais graves de militares, no Ceará, afastados temporariamente das atividades por uso de drogas. A diferença entre os casos foi de apenas dois meses. Ambos eram, até então, lotados na Companhia de Comando da 10ª Região Militar, no Centro de Fortaleza. O local é o principal quartel do Exército no Estado.

Os casos de Expedito e José foram tratados como questão de saúde. Se tivessem sido flagrados portando ou utilizando a droga na unidade militar, não escapariam de responder na Justiça Militar. “O Exército prioriza a prevenção. A partir do momento que a pessoa está doente, precisa de ajuda, ela será encaminhada para tratamento. Não é todo drogadicto que será internado. Muitos conseguem sair só em nível ambulatorial. Alguns que precisarem de internação a gente tem estrutura para isso”, esclarece o major Pedro Leopoldo Rouquayrol, da Inspetoria de Saúde da 10ª Região.

Do Hospital Geral do Exército, na Aldeota, Expedito foi levado para o Instituto Volta Vida (IVV), na Lagoa Redonda. O IVV é conveniado ao Fundo de Saúde do Exército (Fusex), para casos extremos. O Fusex cobre as despesas. Após 90 dias, o soldado foi liberado e, no retorno ao quartel, encerrou seu período nas Forças Armadas. Não respondeu a processo de expulsão. Por regra da Norma de Perícia Médica aplicada no Exército, um militar temporário (soldado) é obrigado a dar baixa, se desligar, após três meses de licença médica.

José está internado no Instituto desde outubro. Pelo tempo, seu desligamento também será compulsório. Ele está limpo desde então. Num dos piores momentos, chegou a desaparecer por mais de três dias. Teve fotos divulgadas nas redes sociais pelos familiares. Estava dormindo nas ruas. “No meu caso, me trataram, me deram uma oportunidade de saber mais da minha doença. É uma realidade que infelizmente acontece dentro das unidades”, diz o soldado.

(*) Nesta série, O POVO opta por usar nomes fictícios para os militares denunciados, em tratamento ou já expulsos.

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“Sentia necessidade de parar, não sabia como”

A narrativa a seguir é de um soldado do Exército que cheirava cocaína no quartel da Companhia de Comando da 10ª Região Militar. José saía do serviço e ia comprar crack no entorno da unidade. Internado para tratar sua dependência química, ele afirma que as drogas são “uma realidade” dentro dos quartéis locais. O nome é fictício.

Onde tudo começou

Tenho 20 anos. Entrei no Exército em 2018. Entrei no cumprimento obrigatório, mas desde a infância tinha o sonho de seguir a carreira militar. Meu pai serviu no Parque de Manutenção por oito anos e me espelhava nele, tinha esse sonho de servir as Forças Armadas. Mas, na minha adolescência, sempre fui um cara rebelde. Parei os estudos por conta do uso de drogas. Após entrar nas Forças Armadas tive outra maneira de viver. O contato com disciplina, hierarquia. Isso veio me moldando e acabei gostando, foi uma coisa diferente pra mim. Foi quando desencadeou mais profundamente o meu uso. Foi quando ganhei mais liberdade, a confiança da minha família, mas ainda tinha aquela insegurança porque não partilhava com eles realmente o meu sentimento. Eles sabiam sobre o meu uso, mas não a frequência, não sobre as minhas amizades. Pra eles era superficial, algumas vezes. Eu era castigado, mas não tão a fundo. E, depois que entrei nas Forças Armadas, ganhei uma certa liberdade em casa, onde peguei em dinheiro. E, sem pedir ajuda a ninguém, fui desencadeando mais ainda meu uso de drogas. Foi onde tudo começou.

Fundo do poço

Eu comecei a fumar maconha com 12 anos. Por necessidade de aprovação, de querer estar junto do pessoal mais velho da escola, de querer ser um cara enturmado. Nunca me aceitando. Aos 14 eu parei de estudar, foi quando entrei no Ensino Médio. Faltava aula, deixava de ir à escola, o uso foi aumentando ao ponto de eu parar de estudar. Ia uma ou duas vezes na semana à escola. Com o decorrer do tempo fui conhecendo psicotrópicos, remédios antidepressivos. Logo em seguida conheci a cocaína, alucinógenos, ecstasy. Cheguei a usar diversos tipos de drogas, como cogumelos, quetamina… Acho que a única droga que não cheguei a usar foi a heroína. Por último, cheguei ao meu fundo de poço, já estava usando o crack. Vi que já estava totalmente sem o controle da minha vida. Sentia necessidade de parar, mas não sabia como. Tentei por diversas vezes. Ainda mais com o potencial que eu tinha de ter dinheiro em minhas mãos, não saber como usar. Não partilhava isso com ninguém, não falava pra ninguém das minhas dificuldades, não tinha ajuda de alguém próximo. Já estava me isolando da minha família, não conversava com ninguém. Já não tinha amigos.

Droga e trabalho

Eu tinha a ideia de conciliar, de poder manter meu uso e meu emprego. No começo de tudo eu consegui manter meu desempenho, consegui engajar nas Forças Armadas. Meu uso não estava frequente, estava conseguindo assimilar tudo. Usava geralmente à noite, depois do expediente. Militar, continuei consumindo. Todos os dias. Juntava uma turma e saía pra bares, boates, festas. Tinha esse medo de perder o emprego, porque era uma coisa que gostava, que fazia de coração. Tinha esse amor pelas Forças Armadas, ainda tenho, mas chegou a um ponto que não conseguia conciliar mais tudo isso. Já tinha medo de perder, de saber o que o pessoal ia achar se soubesse que estava usando droga. Tinha medo de pedir ajuda, de eles automaticamente me expulsarem e me prenderem. Usei drogas dentro uma unidade militar, sim, sim. Já cheguei sob efeito de substância, já cheguei a consumir dentro das unidades. Usei dentro de banheiros, ao lado dos contêineres de lixo. Geralmente em locais que não havia ninguém, só eu, isolado. Usava cocaína, que é uma droga fácil de usar, não inala dor e não deixa vestígio. Achava que era pra me manter acordado, mas, na verdade, não era. Eu estava somente na abstinência e queria preencher uma coisa dentro de mim, que não conseguia saber o que era. Um vazio. Procurava isso nas drogas. E até perceber era muito difícil. Por ser a única coisa que eu poderia utilizar dentro da unidade que não chamasse a atenção de terceiros.

Uma parada

Interrompi o uso só no período do internato, do pré-alistamento. Parei porque tinha medo que fizessem exame de sangue, algum exame toxicológico, saberem que eu era usuário de drogas e eu não entrar. Foi o período que eu dei uma parada mesmo. Mais por questão física.

Outros militares

Conheci outros militares que consumiam. Bastante. Muitos, muitos. Por vezes eu falava pra mim mesmo que queria parar, que não aguentava mais aquilo ali. Dentro de mim já estava esgotado, exausto, não conseguia mais. Mas, pela convivência com o pessoal, a galera chamava pra sair. “Ah, vamos sair, só tomar uma cerveja”, e sempre não é só uma cerveja. Ia na intenção de tomar uma cerveja, mas na verdade estava querendo usar droga. Se eu tomasse um gole de cerveja, com certeza iria utilizar droga. Quando eu estava com a cabeça focada no trabalho, conseguia desenvolver meu papel perfeitamente. Conseguia trabalhar normalmente. Mas a partir do momento que tinha uma raiva, uma frustração, um sentimento que não conseguia externar, procurava me anestesiar usando drogas. Isso veio dificultar muito, porque tinha o receio de partilhar com alguém dentro da unidade com medo de represálias. De alguém achar que era um defeito de caráter meu, que eu poderia parar a hora que quisesse. Eventualmente eu poderia ser preso, simplesmente ser expulso automaticamente. Então tinha esse receio, não falava com ninguém, simplesmente guardava pra mim e ia alimentando isso mais ainda.

Dentro do quartel

É comum o uso de drogas no ambiente militar, sim. Principalmente esse pessoal que chega mais novo, mais recente. Os recrutas, os mais novatos, que chegam e ainda não sabem como é a rotina, a doutrina, disciplina, hierarquia, do regimento, do compromisso da unidade, do nome, do respeito pelas Forças Armadas. É muito constrangedor você estar no meio de uma situação na rua e ser pego com droga, você sendo militar, e a polícia não mede esforço. Se você estiver errado, em qualquer situação que seja, mesmo se não estiver usando droga e estiver perto de alguém que esteja utilizando, você é tachado do mesmo jeito. Teve gente que passou a consumir dentro…por influência, com certeza. Teve gente que já veio com isso, teve gente que ainda conseguia manter o padrão e conciliar o trabalho com o uso das drogas. Em outras unidades via bastante. Cheguei a ver. Era comum. Geralmente quando ficava aquele grupo mais jovem, que não tinha alguém com mais experiência, com certa maturidade. A galera mais jovem começava um papo da rotina lá fora, como era a vida, uns começavam a se identificar com os outros, onde moravam, locais que andavam. A ideia se batia e um usava droga e outro também.

Conflito pessoal

Não tem perfil, sabe, pra essa doença. Eu vejo como uma doença. Pode ser o mais inteligente, que faça o trabalho mais árduo e mais produtivo na unidade, ou aquele que não faz nada, o mais desleixado, mais fácil de ser identificado. Mas tem pessoas que conseguem assimilar o trabalho, fazer tudo corretamente e não aparentar que utiliza drogas. Essas pessoas são as principais que devem ser observadas. Porque elas geralmente estão em conflito com elas mesmas. No meu caso, conseguia assimilar bastante, mas chegou a um ponto que eu não conseguia mais. Não dormia, não conseguia me alimentar, tomar um banho, não conseguia conversar abertamente com uma pessoa. Nunca fui flagrado consumindo. Alguns companheiros que trabalhavam comigo já sabiam do meu histórico, sabiam que eu usava drogas. Chegou um período que já estava sendo tachado como um “noia”. Meu apelido já estava sendo Noia. Pra mim, aquilo já estava sendo normal, não ligava mais pra isso. Já estava, de certa forma, gostando. Mas dentro de mim aquilo ali doía demais. Quando era chamado de cracudo, aquilo doia. Por fora eu aparentava ser um cara que não ligava, que tanto fazia. Por tanto ser chamado assim, já me estava me remoendo, sentindo angústia. Já estava a ponto de explodir, de tantas coisas, e alguns companheiros notaram meu desempenho. Por eu ter uma certa caminhada boa, exemplar, e de um período para outro eu decair. Chegar atrasado, faltar serviço, mentir, receber transgressões disciplinares e, mesmo assim, dar conta.

Punição

Cheguei a ser punido por chegar atrasado, faltar serviço. Fiquei detido no quartel, impedido de ir pra casa. Duas vezes. Não ligava mais. E era uma coisa que eu mais tinha preocupação, perder meu emprego. Sempre fui um cara que chegava no horário, cumpria meu dever, meu serviço. Tinha cerca de um ano e seis meses de Exército. Me apresentei em outubro do ano passado dizendo que estava consumindo. Tinha consumido um dia antes. Não consumi mais. Eles notaram que eu estava muito mal, tinha emagrecido muito, muito. Estava numa decadência física, mental, emocional. Já não conversava com ninguém, totalmente exausto. Precisava botar aquilo pra fora, mas não tinha forças. Já estava gritando por dentro, mas não conseguia falar isso pra ninguém. E eles notaram. Falaram “cara, você precisa de ajuda, precisa parar com isso, se internar, fazer alguma coisa. Senão você vai morrer”. Eu com a mente totalmente fechada. “Não preciso disso, posso parar a hora que eu quiser”.

Ajuda

Tive amigos no Exército que me aconselharam. Tinha pessoas que eu confiava mesmo. Foi aí que veio, acho, uma luz divina para a minha recuperação. Foi quando um cabo veio e falou pra mim: “Ei cara, tenho um primo que era igualzinho a você, da mesma idade. E eu pedi a ele, implorei que pedisse ajuda. Ele não pediu e morreu. E não quero que o mesmo aconteça com você. Considero você como se fosse da minha família”, e começou a chorar. “Se você sair daqui hoje e voltar a usar drogas, você vai morrer” e caiu em prantos. Na mesma hora não aguentei a pressão, comecei a chorar também. Puxei um dinheiro que tinha guardado e falei pra ele “cara, tô usando crack. Já tentei parar por conta própria, tenho essa dificuldade, tô viciado, tô gastando todo o meu dinheiro. Minha família tá preocupada, minha mãe tá no hospital porque desapareço de casa dois, três dias”. Faltando o serviço, perdendo o controle da minha rotina, meus deveres, compromissos. Estava misturando tudo, estava numa decadência. Um sargento foi e falou: “cara, se você pedir ajuda, ninguém tá aqui pra lhe prejudicar. A gente quer o seu bem, sabe quem você é, como você chegou aqui. Em momento algum, se você estiver buscando ajuda, a gente vai lhe expulsar, lhe jogar na rua. A gente quer ver você bem. Chegou aqui bem, conseguiu trabalhar, se destacar. A gente não vai abrir mão de você fácil. Peça ajuda. A gente vai conseguir te internar. Você não vai morrer”. Comecei a me tremer e disse que não conseguia mais parar. “Preciso de ajuda, quero me internar, tô usando crack. Mas tenho muito medo do que vai acontecer comigo”. Ele disse que ninguém ia me julgar pelo que eu estava fazendo. Iriam me ajudar, me tirar dessa. Foi aí que confiei realmente em expor o que estava sentindo, confiar que eles poderiam me ajudar. No mesmo dia eu vim pra cá (centro de recuperação). Falei com meu comandante de Companhia, ele falou com a assistente social. No mesmo momento já entraram em contato com minha família. Falaram sobre a internação, sobre o Instituto Volta Vida. E fiquei surpreso pela iniciativa que eles tomaram e não me punir, me expulsarem, me descartarem. Porque eu poderia ser preso por estar utilizando drogas dentro da unidade, por ter uma série de transgressões, várias situações que vinham se repetindo. E, pelo contrário, eles me deram a mão, me ajudaram. Eu me senti mais confiante e foi gratificante.

Suportes

Minha percepção hoje sobre isso é que antes eu achava que era um defeito de caráter meu. De querer usar drogas. Hoje percebo que sofro de uma doença chamada adicção. Que não foi só o uso de drogas que fez minha vida virar isso tudo, mas sim meus comportamentos. Sempre quando acontecia alguma coisa comigo, traumas ou sentimentos que eu guardava, isso me prejudicava e queria preencher esse vazio com algo imediato. Procurava isso na droga. Mas podia ser bebidas ou prazeres imediatos. E isso não preenchia nada. O que vem me preenchendo hoje é procurar aprender algo, me espiritualizar mais, procurar minha família, algum ambiente saudável, um esporte, preencher com algo que vá me fazer crescer mais. Vejo que muitos jovens procuram as drogas não só pelo simples fato de usar drogas, mas por necessidade de aprovação, de querer se enturmar numa galera. Acho que a droga em si é só a cereja do bolo. Os comportamentos são a principal chave para querer fazer a pessoa usar.

Tratar e não julgar

É uma realidade que no meio de unidades do Exército existe bastante, mas acho bacana o trabalho que as Forças Armadas vêm fazendo. Tratar o pessoal e não julgá-los, não descartar. No meu caso, me trataram, me deram uma oportunidade de saber mais, saber da minha doença. E mostrar a eles que a verdade não era aquilo que eu acreditava, que eu estava me preenchendo com substâncias. E, sim, existe muito a ser trabalhado e é uma realidade que infelizmente acontece dentro das unidades. (Cláudio Ribeiro)

Fonte: O POVO Online