Eduardo Giannetti: “O sistema de poder no Brasil está por um fio”

O ficcionista e ensaísta Eduardo Giannetti recorre a um trecho de poema de Fernando Pessoa para explicar o Brasil de hoje: “Extraviamo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”.

Economista e cientista social por formação, Giannetti está convencido de que o País chegou a um patamar de desventura política e econômica além do qual não pode ir além.

“Mas é muito importante que tenha ocorrido isso. Se o que a Lava Jato mostrou existe, e tudo sugere que sim, é melhor saber do que não saber”, afirma em entrevista ao O POVO na última quarta-feira.

Autor de O elogio do vira-lata (Cia das Letras), coletânea de ensaios nos quais explora o conceito que está na base do que o dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) identificou como o principal complexo do brasileiro, Giannetti propõe que a mestiçagem é um fator de potência na cultura nacional.

Para o pesquisador, é precisamente nessa capacidade de mistura e de hibridização de matrizes de pensamento e arte que o Brasil se reinventa como povo e democracia.

Professor da Universidade de São Paulo (USP), ele projeta que as próximas eleições presidenciais, as primeiras depois de deflagrada a Operação Lava Jato, serão determinantes para o futuro do País.

Giannetti sublinha, porém, o risco de que a revolta e a exasperação dos brasileiros se traduzam na escolha de nomes que representem risco de ruptura democrática. “O espaço para a aventura não pode ser descartado”, alerta.

Confira a seguir os principais trechos da conversa.

O POVO – Aproveitando duas qualidades suas – uma de ficcionista e outra de ensaísta –, queria propor um exercício: a partir de 1º de janeiro de 2019, que condições de governar vai ter o próximo presidente?

Eduardo Giannetti - Depende de muita coisa. A primeira coisa é se o final do governo Temer, na janela que vai ter depois das eleições e antes do fim do mandato, vai conseguir aprovar o que ficou pendente da sua agenda de reformas econômicas. Há uma expectativa de que ele possa avançar em alguns itens dessa agenda no período que separa o encerramento das eleições e o término do mandato. Isso já vai preparar o terreno para que o próximo governo encontre uma situação um pouco menos delicada na área fiscal do que ela é hoje. Outra coisa importante é como vai se dar o processo eleitoral. Eu acho que vai facilitar muito para o outro governo se ele souber apresentar com clareza as suas propostas, as propostas em torno das quais ele eventualmente será eleito. E constituir em torno dessas propostas um grau de adesão e de apoio dos novos políticos que permita a ele fazer um bom uso da chamada “lua de mel”, que é o período inicial de qualquer novo governo no Brasil, algo que dura aproximadamente um ano. Um período em que o Executivo tem mais capital político e pode deflagrar um processo importante de reformas no País. A terceira variável que eu mencionaria é o grau de renovação do Congresso. Acho que vai depender muito da sociedade brasileira saber utilizar de maneira consequente tudo que ela descobriu à luz da Operação Lava Jato sobre o que vem sendo a política no Brasil. Então se houver uma boa e bem-vinda renovação nos quadros do Congresso, acho que isso vai facilitar muito o início de um processo de governança que não seja pautado pelas práticas que nós temos observado e que se deterioraram muito no Brasil nos últimos anos.

 

OP – Uma das variáveis que o senhor menciona é a campanha. Como tem avaliado o quadro de propostas dos candidatos, sobretudo na área econômica?

Giannetti – É cedo ainda pra avaliar. Só depois do fim da Copa é que começou realmente a esquentar o debate. Os candidatos ainda não apresentaram os seus programas, não começou a propaganda eleitoral e também ainda não foram feitos os debates entre os candidatos. Vamos ter que aguardar um pouco, mas posso dizer que, com uma ou outra exceção, a maioria dos economistas que vêm assessorando candidatos tem se comprometido com um respeito a um mínimo de racionalidade econômica, que vai ser muito importante para o Brasil preservar. Assim como foi feito na transição entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula (PT). Um dos belos momentos, dentro da redemocratização do País, foi o modo como se deu a alternância de poder entre o segundo mandato de Fernando Henrique e o primeiro mandato de Lula. Foi feita de uma maneira muito serena, muito competente. Houve uma preparação no período de transição, e o governo Lula, no início do primeiro mandato, surpreendeu a todos adotando políticas econômicas extremamente austeras e necessárias naquele momento para reverter o quadro de descontrole que se tornava ameaçador e que era em grande parte produzido pela própria ameaça que, em certo momento, pairava em relação ao que viria a ser um governo Lula no Brasil. Se nós conseguirmos voltar àquele bom-senso que prevaleceu na alternância de poder, ainda no primeiro mandato do Lula, vai ser muito bom para o País.

 

OP – O senhor considera que esse primeiro mandato de Lula pode ser seguido como exemplo hoje?

Giannetti – Como alternância de poder e compromisso com a estabilidade macroeconômica, foi a melhor surpresa de todo o período da redemocratização. O que Lula fez no Brasil foi parecido com o que Nelson Mandela fez na África do Sul quando assumiu e que mostra uma postura de estadista. Respeito absoluto à racionalidade da macroeconomia para que ela não tiranize e nos obrigue a viver de crise em crise, como infelizmente voltou a acontecer no Brasil a partir da forte deterioração da qualidade da política econômica, que começa no segundo mandato do Lula e se aprofunda de maneira desastrosa durante os governos Dilma.

 

OP – O que deu errado, então? Foi ainda com Lula ou apenas com Dilma?

Giannetti – O ponto de inflexão foi o mensalão, com a queda da equipe do então ministro (Fazenda) Antonio Palocci. O mensalão empurrou o Lula para uma aliança com o que há de mais sinistro na política brasileira para sobreviver politicamente. E a queda do Palocci foi seguida por uma piora marcante na qualidade e na competência da política econômica brasileira. Houve uma piora realmente significativa de qualidade técnica na gestão econômica. Infelizmente, lamento dizer isso, mas o governo Dilma acirrou o pior Lula do segundo mandato. Ela já começa o governo completamente rendida às forças mais corruptas da República, e a política econômica é simplesmente calamitosa. Tanto na área macroeconômica – política monetária, fiscal e cambial – quanto e principalmente na política microeconômica. As intervenções desastradas na área da energia elétrica, de gás e petróleo, na questão da regulamentação para o investimento em infraestrutura, na concessão descabida e completamente desordenada de subsídios e créditos favorecidos ao setor privado, o uso extremamente irresponsável do BNDES para eleger campeões nacionais. Enfim, a lista é longa. Mas o Brasil está pagando o erro desse acúmulo de equívocos que o governo Dilma cometeu e que nos levaram à pior recessão da história brasileira. A economia, como a saúde, tem o péssimo hábito de tiranizar os que abusam dela. E foi isso que aconteceu com a Dilma.

OP – Qual foi o principal erro da Dilma?

Giannetti – São muitos e muito graves, mas o principal foi a expansão do crédito subsidiado do BNDES, no montante de R$ 900 bilhões, usando como funding o endividamento do Tesouro, foi de uma gravidade sem precedentes. E não aumentou em nada, pelo contrário, o investimento do setor privado no Brasil. As empresas, que já estavam investindo pouco, passaram a investir ainda menos. Essa foi a política mais extravagante de todo o período Dilma.

 

OP – Os problemas da Dilma foram mais econômicos que políticos?

Giannetti – A inépcia dela na política é da ordem de magnitude da inépcia na economia. Isso ficou muito claro quando ela, no início do segundo mandato, tendo renovado o seu capital político, loteou 34 ministérios entre dez partidos e não conseguiu eleger o presidente da Câmara dos Deputados. Perdeu o pé da governabilidade já no início do segundo governo. O que veio depois dessa situação insustentável.

OP – Uma das promessas do governo Temer era de retomada da economia depois da queda da ex-presidente Dilma. O senhor se surpreende que a economia esteja demorando tanto pra economia retomar um ritmo de crescimento razoável?

Giannetti – O governo Temer entrou com uma agenda que, no meu entendimento, era correta, que se chama “Ponte para o Futuro”. Apresentou um elenco interessante de reformas, mas ele perdeu completamente a condição de implementar essa agenda a partir de 17 de maio de 2017, quando o presidente foi flagrado numa conversa de cúmplice com um empresário corrupto. Ele morreu ali. O capital político de Temer foi reduzido a pó. O governo praticamente acabou naquele dia e, dali em diante, entrou em modo de sobrevivência. E vem se arrastando a duras penas, com acidentes de percurso como foram a greve dos caminhoneiros e outros escândalos que acabaram abalando o governo ao longo desse caminho.

 

OP – O senhor avalia que o governo perdeu o timing das reformas ou elas não foram tocadas já por falta de sustentação no Congresso?

Giannetti – O mínimo que se pode dizer é que o governo errou no sequenciamento das reformas. Em vez de aprovar o teto dos gastos públicos, que é uma medida abstrata porque, num primeiro momento, não afeta nenhum grupo de interesses, nenhuma corporação… Em vez de aprovar essa medida antes das outras que são mais difíceis e que têm muita resistência, como a reforma da Previdência, ele devia ter feito o contrário. Começar usando o capital político para aprovar a Previdência e só depois uma medida complementar como o teto dos gastos, que já não seria uma coisa tão questionável assim. Agora, aprovar o teto, e não conseguir aprovar a sequência, deixou o teto completamente inexequível.

 

OP – Qual a consequência, não aprovada a Previdência, o teto passa a vigorar sozinho?

Giannetti – Ainda não perde a esperança de que o governo Temer tente aprovar no Congresso, antes do final do mandato, uma reforma da Previdência. Acho que vai haver uma janela de oportunidade entre o fim das eleições e o início do novo mandato. Possivelmente isso ajuda um pouco o novo governo porque ele já entra com a situação da Previdência menos desequilibrada do que ela está hoje e menos explosiva do que ela é hoje.

 

OP – Alguns economistas, como Márcio Pochmann, ligado ao PT, têm relativizado a necessidade de uma reforma da Previdência como tarefa urgente. Como o senhor avalia isso?

Giannetti – Um equívoco profundo. Não sei se por ignorância da gravidade da situação ou por oportunismo eleitoral.

 

OP – A Operação Lava Jato expôs as entranhas do poder e a relação promíscua entre partidos e empresas. Esse setor mais fisiológico do sistema partidário, do qual os partidos do chamado “centrão” são exemplo, mostra-se muito resistente. Como o senhor avalia isso?

Giannetti – Considero a Lava Jato o mais importante acontecimento da atualidade na vida brasileira. Considero-a equivalente, nos últimos anos, ao que foram a redemocratização nos anos 1980 e a conquista da estabilidade monetária nos anos 1990. Por quê? Porque a Lava Jato escancarou a deformação patrimonialista do Estado brasileiro. Essa promiscuidade entre setor privado e governantes, que nos acompanha há séculos, como mostrou Raymundo Faoro em Os donos do poder, foi escancarada pela Lava Jato de maneira irreversível. A operação revelou que duas empresas privadas brasileiras tinham colocado o Estado na sua folha de pagamento. E o escancaramento desse modelo patrimonialista-corporativista é inapelável. Resta saber agora o que a opinião pública e a sociedade farão diante dos fatos estarrecedores que se tornaram públicos e documentados a partir da investigação. Não me surpreende que a velha política esteja fazendo tudo ao seu alcance para sobreviver. Mas eles estão em apuros e o sistema de poder no Brasil está por um fio. Acho que podemos, sim, estar no limiar de uma mudança muito profunda no modo como se conduz o Estado brasileiro. Eu tenho a esperança de que, embora não seja condição suficiente, a Lava Jato possa ser uma condição necessária para que essa mudança ocorra. A condição suficiente é o que nós fizermos dessas informações, desse processo de autoconhecimento doloroso pelo qual nós passamos, nos debates eleitorais que se avizinham. Eu gosto de citar o Fernando Pessoa nesse contexto. O que mais me encheu de esperança com relação ao Brasil foi quando eu li o verso do Pessoa que diz: “Extraviamo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”.

 

OP – O Brasil chegou a esse ponto?

Giannetti – Sem dúvida. Mas é muito importante que tenha ocorrido isso. Se o que a Lava Jato mostrou existe, e tudo sugere que sim, é melhor saber do que não saber. A pior situação é tudo isso existir e você não saber. É como o câncer que está corroendo as estranhas e você não diagnosticou ainda. É o pior dos mundos. É lamentável que a esperança de renovação, que tanto PT quanto PSDB representaram, tenha afundado nesse velho modelo do patrimonialismo brasileiro.

OP – Durante certo período houve uma espécie de caça ao novo na política, com a aparição de apresentadores de TV e ex-ministros do Supremo que, no entanto, acabaram recuando. O senhor atribui esse receio a quê? As pessoas estão receosas de participar da política partidária?

Giannetti – Cada caso é um caso. Não acho que dê pra generalizar. O fato é que a política brasileira é um jogo muito pesado, muito sujo e muito caro. É compreensível que pessoas de fora, como esses que você mencionou, relutem e sintam uma certa vertigem diante dos riscos e implicações que um envolvimento desse tipo pode representar. Agora, o eleitorado brasileiro clama por renovação. Ele não tolera mais o que ele descobriu sobre a política brasileira.

O risco que nós corremos é que esses sentimentos de indignação e de revolta descambem pra indiferença ou pra violência. Será muito ruim se o resultado desse autoconhecimento se traduzir em rejeição da política ou busca de rupturas, inclusive da própria democracia. Lógico que todos nós devemos lutar para que esses sentimentos de indignação e revolta, perfeitamente legítimos, tenham um sentido construtivo, de aproveitar a democracia para corrigir os erros do passado.

OP – O senhor vê a possibilidade hoje de eleição de um nome que represente risco à democracia no País?

Giannetti – Esse risco existe. Sempre existe. E, diante da raiva dos brasileiros com o establishment político, o espaço para a aventura não pode ser descartado. Espero que não enverede por aí, mas, como analista frio dos fatos, eu não posso negar essa possibilidade.

OP – No seu livro mais recente, o senhor faz um elogio do vira-lata. Como esse conceito fala ao Brasil de hoje?

Giannetti – O “complexo de vira-latas” foi uma expressão cunhada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues para denotar o sentimento de inferioridade que o brasileiro tem diante do mundo desenvolvido, diante dos povos civilizados e do ocidente moderno. Esse sentimento, como tento mostrar no livro, nos acompanha desde a nossa origem, até antes de o Brasil ser Brasil. Mas ele só foi nomeado em 1958 no contexto da Copa do Mundo. Depois ele ganhou vida própria e hoje está presente no imaginário brasileiro. Agora, uma coisa é nomear esse sentimento de que nós somos inferiores ao resto do mundo. E outra coisa é nomear esse complexo de vira-latas. Por que escolher o vira-lata para dar nome a nossa inferioridade? O que há de errado em ser vira-lata? Se é pra escolher entre ser o poodle da madame ou o doberman da polícia secreta, eu prefiro ser o vira-lata. O vira-lata é o mestiço, o misturado, o espontâneo. E isso é o que tem de mais belo na cultura brasileira. Nós somos o resultado de uma fusão única entre matrizes culturais e étnicas como não seu deu em lugar nenhum do mundo. Isso é algo a ser celebrado, algo a ser cultivado, uma vitalidade peculiar. A condição de vira-latas é possivelmente o que nós temos de melhor no Brasil. Acho que o Nelson Rodrigues foi profundamente infeliz e equivocado em chamar esse sentimento de complexo de vira-latas. O verdadeiro complexo de vira-latas é a ideia de que há algo de errado em ser vira-lata.

 

OP – Como isso se reflete na política?

Giannetti – Não tem um reflexo imediato. Isso se reflete nos valores que dominam a nossa imaginação. Os brasileiros não têm a alma competitiva, calculista e hiper-materialista dos povos do norte, os anglo-americanos. Somos uma cultura muito mais afável, o que Rousseau chamava de “doce sentimento da existência”. Não transportamos a guerra na alma. Somos um povo lúdico, amigável, que prefere o congraçamento à competição. E isso é parte do ethos vira-lata. É uma forma de vida celebrada, por exemplo, num samba cantado por Cármen Miranda em que ela define o vira-lata como sendo sem coleira e sem patrão.

 

OP – O senhor acredita que a economia pode produzir felicidade coletiva?

Giannetti – Há um limite pra isso. A economia pode certamente produzir infelicidade coletiva. Se você não tem dinheiro pra comer, se não tem dinheiro pra ter o mínimo de segurança, de acesso a bens primários, isso afeta a sua vida. É como a saúde. Mas, assim como a saúde não garante a felicidade, apenas conforto material também não garante a felicidade. Um resultado muito importante das pesquisas empíricas atuais sobre a relação entre economia e felicidade mostra que, a partir de um certo nível de renda que não é muito alto, desaparece a relação entre acréscimos de ganho e acréscimos de bem-estar subjetivo. A renda pode continuar crescendo, como cresceu nos países altamente desenvolvidos, e isso não se traduz em maior felicidade das pessoas.

Perfil

EDUARDO GIANNETTI nasceu em Belo Horizonte, em 1957. É economista e cientista social formado pela USP e com Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge. Lecionou nas duas instituições.

 

Política

ECONOMIA. Como formulador econômico, Eduardo Giannetti participou da campanha de Marina Silva (Rede) em 2010 e 2014. Neste ano, colaborou com a candidata para a elaboração do plano na mesma área. O economista defende necessidade de reforma da Previdência. Para ele, o governo Temer ainda poderá aprovar a medida antes do fim do mandato.

 

Livros

É AUTOR de Vicios privados, benefícios públicos?, livro ganhador do Prêmio Jabuti.

 

O elogio do vira-lata e outros ensaios

 

Autor: Eduardo Giannetti

Editora: Cia. das Letras

Preço: R$ 64,90

(e-book: R$ 39,90)

O ficcionista e ensaísta Eduardo Giannetti recorre a um trecho de poema de Fernando Pessoa para explicar o Brasil de hoje: “Extraviamo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”.

Economista e cientista social por formação, Giannetti está convencido de que o País chegou a um patamar de desventura política e econômica além do qual não pode ir além.

“Mas é muito importante que tenha ocorrido isso. Se o que a Lava Jato mostrou existe, e tudo sugere que sim, é melhor saber do que não saber”, afirma em entrevista ao O POVO na última quarta-feira.

Autor de O elogio do vira-lata (Cia das Letras), coletânea de ensaios nos quais explora o conceito que está na base do que o dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) identificou como o principal complexo do brasileiro, Giannetti propõe que a mestiçagem é um fator de potência na cultura nacional.

Para o pesquisador, é precisamente nessa capacidade de mistura e de hibridização de matrizes de pensamento e arte que o Brasil se reinventa como povo e democracia.

Professor da Universidade de São Paulo (USP), ele projeta que as próximas eleições presidenciais, as primeiras depois de deflagrada a Operação Lava Jato, serão determinantes para o futuro do País.

Giannetti sublinha, porém, o risco de que a revolta e a exasperação dos brasileiros se traduzam na escolha de nomes que representem risco de ruptura democrática. “O espaço para a aventura não pode ser descartado”, alerta.

Confira a seguir os principais trechos da conversa.

O POVO – Aproveitando duas qualidades suas – uma de ficcionista e outra de ensaísta –, queria propor um exercício: a partir de 1º de janeiro de 2019, que condições de governar vai ter o próximo presidente?

Eduardo Giannetti - Depende de muita coisa. A primeira coisa é se o final do governo Temer, na janela que vai ter depois das eleições e antes do fim do mandato, vai conseguir aprovar o que ficou pendente da sua agenda de reformas econômicas. Há uma expectativa de que ele possa avançar em alguns itens dessa agenda no período que separa o encerramento das eleições e o término do mandato. Isso já vai preparar o terreno para que o próximo governo encontre uma situação um pouco menos delicada na área fiscal do que ela é hoje. Outra coisa importante é como vai se dar o processo eleitoral. Eu acho que vai facilitar muito para o outro governo se ele souber apresentar com clareza as suas propostas, as propostas em torno das quais ele eventualmente será eleito. E constituir em torno dessas propostas um grau de adesão e de apoio dos novos políticos que permita a ele fazer um bom uso da chamada “lua de mel”, que é o período inicial de qualquer novo governo no Brasil, algo que dura aproximadamente um ano. Um período em que o Executivo tem mais capital político e pode deflagrar um processo importante de reformas no País. A terceira variável que eu mencionaria é o grau de renovação do Congresso. Acho que vai depender muito da sociedade brasileira saber utilizar de maneira consequente tudo que ela descobriu à luz da Operação Lava Jato sobre o que vem sendo a política no Brasil. Então se houver uma boa e bem-vinda renovação nos quadros do Congresso, acho que isso vai facilitar muito o início de um processo de governança que não seja pautado pelas práticas que nós temos observado e que se deterioraram muito no Brasil nos últimos anos.

 

OP – Uma das variáveis que o senhor menciona é a campanha. Como tem avaliado o quadro de propostas dos candidatos, sobretudo na área econômica?

Giannetti – É cedo ainda pra avaliar. Só depois do fim da Copa é que começou realmente a esquentar o debate. Os candidatos ainda não apresentaram os seus programas, não começou a propaganda eleitoral e também ainda não foram feitos os debates entre os candidatos. Vamos ter que aguardar um pouco, mas posso dizer que, com uma ou outra exceção, a maioria dos economistas que vêm assessorando candidatos tem se comprometido com um respeito a um mínimo de racionalidade econômica, que vai ser muito importante para o Brasil preservar. Assim como foi feito na transição entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula (PT). Um dos belos momentos, dentro da redemocratização do País, foi o modo como se deu a alternância de poder entre o segundo mandato de Fernando Henrique e o primeiro mandato de Lula. Foi feita de uma maneira muito serena, muito competente. Houve uma preparação no período de transição, e o governo Lula, no início do primeiro mandato, surpreendeu a todos adotando políticas econômicas extremamente austeras e necessárias naquele momento para reverter o quadro de descontrole que se tornava ameaçador e que era em grande parte produzido pela própria ameaça que, em certo momento, pairava em relação ao que viria a ser um governo Lula no Brasil. Se nós conseguirmos voltar àquele bom-senso que prevaleceu na alternância de poder, ainda no primeiro mandato do Lula, vai ser muito bom para o País.

 

OP – O senhor considera que esse primeiro mandato de Lula pode ser seguido como exemplo hoje?

Giannetti – Como alternância de poder e compromisso com a estabilidade macroeconômica, foi a melhor surpresa de todo o período da redemocratização. O que Lula fez no Brasil foi parecido com o que Nelson Mandela fez na África do Sul quando assumiu e que mostra uma postura de estadista. Respeito absoluto à racionalidade da macroeconomia para que ela não tiranize e nos obrigue a viver de crise em crise, como infelizmente voltou a acontecer no Brasil a partir da forte deterioração da qualidade da política econômica, que começa no segundo mandato do Lula e se aprofunda de maneira desastrosa durante os governos Dilma.

 

OP – O que deu errado, então? Foi ainda com Lula ou apenas com Dilma?

Giannetti – O ponto de inflexão foi o mensalão, com a queda da equipe do então ministro (Fazenda) Antonio Palocci. O mensalão empurrou o Lula para uma aliança com o que há de mais sinistro na política brasileira para sobreviver politicamente. E a queda do Palocci foi seguida por uma piora marcante na qualidade e na competência da política econômica brasileira. Houve uma piora realmente significativa de qualidade técnica na gestão econômica. Infelizmente, lamento dizer isso, mas o governo Dilma acirrou o pior Lula do segundo mandato. Ela já começa o governo completamente rendida às forças mais corruptas da República, e a política econômica é simplesmente calamitosa. Tanto na área macroeconômica – política monetária, fiscal e cambial – quanto e principalmente na política microeconômica. As intervenções desastradas na área da energia elétrica, de gás e petróleo, na questão da regulamentação para o investimento em infraestrutura, na concessão descabida e completamente desordenada de subsídios e créditos favorecidos ao setor privado, o uso extremamente irresponsável do BNDES para eleger campeões nacionais. Enfim, a lista é longa. Mas o Brasil está pagando o erro desse acúmulo de equívocos que o governo Dilma cometeu e que nos levaram à pior recessão da história brasileira. A economia, como a saúde, tem o péssimo hábito de tiranizar os que abusam dela. E foi isso que aconteceu com a Dilma.

OP – Qual foi o principal erro da Dilma?

Giannetti – São muitos e muito graves, mas o principal foi a expansão do crédito subsidiado do BNDES, no montante de R$ 900 bilhões, usando como funding o endividamento do Tesouro, foi de uma gravidade sem precedentes. E não aumentou em nada, pelo contrário, o investimento do setor privado no Brasil. As empresas, que já estavam investindo pouco, passaram a investir ainda menos. Essa foi a política mais extravagante de todo o período Dilma.

 

OP – Os problemas da Dilma foram mais econômicos que políticos?

Giannetti – A inépcia dela na política é da ordem de magnitude da inépcia na economia. Isso ficou muito claro quando ela, no início do segundo mandato, tendo renovado o seu capital político, loteou 34 ministérios entre dez partidos e não conseguiu eleger o presidente da Câmara dos Deputados. Perdeu o pé da governabilidade já no início do segundo governo. O que veio depois dessa situação insustentável.

OP – Uma das promessas do governo Temer era de retomada da economia depois da queda da ex-presidente Dilma. O senhor se surpreende que a economia esteja demorando tanto pra economia retomar um ritmo de crescimento razoável?

Giannetti – O governo Temer entrou com uma agenda que, no meu entendimento, era correta, que se chama “Ponte para o Futuro”. Apresentou um elenco interessante de reformas, mas ele perdeu completamente a condição de implementar essa agenda a partir de 17 de maio de 2017, quando o presidente foi flagrado numa conversa de cúmplice com um empresário corrupto. Ele morreu ali. O capital político de Temer foi reduzido a pó. O governo praticamente acabou naquele dia e, dali em diante, entrou em modo de sobrevivência. E vem se arrastando a duras penas, com acidentes de percurso como foram a greve dos caminhoneiros e outros escândalos que acabaram abalando o governo ao longo desse caminho.

 

OP – O senhor avalia que o governo perdeu o timing das reformas ou elas não foram tocadas já por falta de sustentação no Congresso?

Giannetti – O mínimo que se pode dizer é que o governo errou no sequenciamento das reformas. Em vez de aprovar o teto dos gastos públicos, que é uma medida abstrata porque, num primeiro momento, não afeta nenhum grupo de interesses, nenhuma corporação… Em vez de aprovar essa medida antes das outras que são mais difíceis e que têm muita resistência, como a reforma da Previdência, ele devia ter feito o contrário. Começar usando o capital político para aprovar a Previdência e só depois uma medida complementar como o teto dos gastos, que já não seria uma coisa tão questionável assim. Agora, aprovar o teto, e não conseguir aprovar a sequência, deixou o teto completamente inexequível.

 

OP – Qual a consequência, não aprovada a Previdência, o teto passa a vigorar sozinho?

Giannetti – Ainda não perde a esperança de que o governo Temer tente aprovar no Congresso, antes do final do mandato, uma reforma da Previdência. Acho que vai haver uma janela de oportunidade entre o fim das eleições e o início do novo mandato. Possivelmente isso ajuda um pouco o novo governo porque ele já entra com a situação da Previdência menos desequilibrada do que ela está hoje e menos explosiva do que ela é hoje.

 

OP – Alguns economistas, como Márcio Pochmann, ligado ao PT, têm relativizado a necessidade de uma reforma da Previdência como tarefa urgente. Como o senhor avalia isso?

Giannetti – Um equívoco profundo. Não sei se por ignorância da gravidade da situação ou por oportunismo eleitoral.

 

OP – A Operação Lava Jato expôs as entranhas do poder e a relação promíscua entre partidos e empresas. Esse setor mais fisiológico do sistema partidário, do qual os partidos do chamado “centrão” são exemplo, mostra-se muito resistente. Como o senhor avalia isso?

Giannetti – Considero a Lava Jato o mais importante acontecimento da atualidade na vida brasileira. Considero-a equivalente, nos últimos anos, ao que foram a redemocratização nos anos 1980 e a conquista da estabilidade monetária nos anos 1990. Por quê? Porque a Lava Jato escancarou a deformação patrimonialista do Estado brasileiro. Essa promiscuidade entre setor privado e governantes, que nos acompanha há séculos, como mostrou Raymundo Faoro em Os donos do poder, foi escancarada pela Lava Jato de maneira irreversível. A operação revelou que duas empresas privadas brasileiras tinham colocado o Estado na sua folha de pagamento. E o escancaramento desse modelo patrimonialista-corporativista é inapelável. Resta saber agora o que a opinião pública e a sociedade farão diante dos fatos estarrecedores que se tornaram públicos e documentados a partir da investigação. Não me surpreende que a velha política esteja fazendo tudo ao seu alcance para sobreviver. Mas eles estão em apuros e o sistema de poder no Brasil está por um fio. Acho que podemos, sim, estar no limiar de uma mudança muito profunda no modo como se conduz o Estado brasileiro. Eu tenho a esperança de que, embora não seja condição suficiente, a Lava Jato possa ser uma condição necessária para que essa mudança ocorra. A condição suficiente é o que nós fizermos dessas informações, desse processo de autoconhecimento doloroso pelo qual nós passamos, nos debates eleitorais que se avizinham. Eu gosto de citar o Fernando Pessoa nesse contexto. O que mais me encheu de esperança com relação ao Brasil foi quando eu li o verso do Pessoa que diz: “Extraviamo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho”.

 

OP – O Brasil chegou a esse ponto?

Giannetti – Sem dúvida. Mas é muito importante que tenha ocorrido isso. Se o que a Lava Jato mostrou existe, e tudo sugere que sim, é melhor saber do que não saber. A pior situação é tudo isso existir e você não saber. É como o câncer que está corroendo as estranhas e você não diagnosticou ainda. É o pior dos mundos. É lamentável que a esperança de renovação, que tanto PT quanto PSDB representaram, tenha afundado nesse velho modelo do patrimonialismo brasileiro.

OP – Durante certo período houve uma espécie de caça ao novo na política, com a aparição de apresentadores de TV e ex-ministros do Supremo que, no entanto, acabaram recuando. O senhor atribui esse receio a quê? As pessoas estão receosas de participar da política partidária?

Giannetti – Cada caso é um caso. Não acho que dê pra generalizar. O fato é que a política brasileira é um jogo muito pesado, muito sujo e muito caro. É compreensível que pessoas de fora, como esses que você mencionou, relutem e sintam uma certa vertigem diante dos riscos e implicações que um envolvimento desse tipo pode representar. Agora, o eleitorado brasileiro clama por renovação. Ele não tolera mais o que ele descobriu sobre a política brasileira.

O risco que nós corremos é que esses sentimentos de indignação e de revolta descambem pra indiferença ou pra violência. Será muito ruim se o resultado desse autoconhecimento se traduzir em rejeição da política ou busca de rupturas, inclusive da própria democracia. Lógico que todos nós devemos lutar para que esses sentimentos de indignação e revolta, perfeitamente legítimos, tenham um sentido construtivo, de aproveitar a democracia para corrigir os erros do passado.

OP – O senhor vê a possibilidade hoje de eleição de um nome que represente risco à democracia no País?

Giannetti – Esse risco existe. Sempre existe. E, diante da raiva dos brasileiros com o establishment político, o espaço para a aventura não pode ser descartado. Espero que não enverede por aí, mas, como analista frio dos fatos, eu não posso negar essa possibilidade.

OP – No seu livro mais recente, o senhor faz um elogio do vira-lata. Como esse conceito fala ao Brasil de hoje?

Giannetti – O “complexo de vira-latas” foi uma expressão cunhada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues para denotar o sentimento de inferioridade que o brasileiro tem diante do mundo desenvolvido, diante dos povos civilizados e do ocidente moderno. Esse sentimento, como tento mostrar no livro, nos acompanha desde a nossa origem, até antes de o Brasil ser Brasil. Mas ele só foi nomeado em 1958 no contexto da Copa do Mundo. Depois ele ganhou vida própria e hoje está presente no imaginário brasileiro. Agora, uma coisa é nomear esse sentimento de que nós somos inferiores ao resto do mundo. E outra coisa é nomear esse complexo de vira-latas. Por que escolher o vira-lata para dar nome a nossa inferioridade? O que há de errado em ser vira-lata? Se é pra escolher entre ser o poodle da madame ou o doberman da polícia secreta, eu prefiro ser o vira-lata. O vira-lata é o mestiço, o misturado, o espontâneo. E isso é o que tem de mais belo na cultura brasileira. Nós somos o resultado de uma fusão única entre matrizes culturais e étnicas como não seu deu em lugar nenhum do mundo. Isso é algo a ser celebrado, algo a ser cultivado, uma vitalidade peculiar. A condição de vira-latas é possivelmente o que nós temos de melhor no Brasil. Acho que o Nelson Rodrigues foi profundamente infeliz e equivocado em chamar esse sentimento de complexo de vira-latas. O verdadeiro complexo de vira-latas é a ideia de que há algo de errado em ser vira-lata.

 

OP – Como isso se reflete na política?

Giannetti – Não tem um reflexo imediato. Isso se reflete nos valores que dominam a nossa imaginação. Os brasileiros não têm a alma competitiva, calculista e hiper-materialista dos povos do norte, os anglo-americanos. Somos uma cultura muito mais afável, o que Rousseau chamava de “doce sentimento da existência”. Não transportamos a guerra na alma. Somos um povo lúdico, amigável, que prefere o congraçamento à competição. E isso é parte do ethos vira-lata. É uma forma de vida celebrada, por exemplo, num samba cantado por Cármen Miranda em que ela define o vira-lata como sendo sem coleira e sem patrão.

 

OP – O senhor acredita que a economia pode produzir felicidade coletiva?

Giannetti – Há um limite pra isso. A economia pode certamente produzir infelicidade coletiva. Se você não tem dinheiro pra comer, se não tem dinheiro pra ter o mínimo de segurança, de acesso a bens primários, isso afeta a sua vida. É como a saúde. Mas, assim como a saúde não garante a felicidade, apenas conforto material também não garante a felicidade. Um resultado muito importante das pesquisas empíricas atuais sobre a relação entre economia e felicidade mostra que, a partir de um certo nível de renda que não é muito alto, desaparece a relação entre acréscimos de ganho e acréscimos de bem-estar subjetivo. A renda pode continuar crescendo, como cresceu nos países altamente desenvolvidos, e isso não se traduz em maior felicidade das pessoas.

Perfil

EDUARDO GIANNETTI nasceu em Belo Horizonte, em 1957. É economista e cientista social formado pela USP e com Ph.D. em Economia pela Universidade de Cambridge. Lecionou nas duas instituições.

 

Política

ECONOMIA. Como formulador econômico, Eduardo Giannetti participou da campanha de Marina Silva (Rede) em 2010 e 2014. Neste ano, colaborou com a candidata para a elaboração do plano na mesma área. O economista defende necessidade de reforma da Previdência. Para ele, o governo Temer ainda poderá aprovar a medida antes do fim do mandato.

 

Livros

É AUTOR de Vicios privados, benefícios públicos?, livro ganhador do Prêmio Jabuti.

 

O elogio do vira-lata e outros ensaios

 

Autor: Eduardo Giannetti

Editora: Cia. das Letras

Preço: R$ 64,90

(e-book: R$ 39,90)

Fonte: O POVO Online