Entenda o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual, versão mais intensa da TPM

Doenças novas foram classificadas na última edição da Classificação Internacional de Doenças (CID 11), publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A nova versão foi apresentada em junho de 2018 para países membros e entrará em vigor em 2022 no Brasil. Entre as doenças reconhecidas, está o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), variação mais severa da Tensão Pré-Menstrual (TPM) ou Síndrome Pré-Menstrual. O transtorno apresenta mais sintomas psicológicos do que físicos e causa prejuízos nas relações e atividades das mulheres que sofrem da doença.

Gláucia Pereira, 37 anos, é empresária e descobriu que sofre com o transtorno há quatro anos. Ela relata que achava que sofria de uma Tensão Pré-Menstrual severa. Ela anotou o que sentia e marcou uma consulta com uma ginecologista. Foi receitada com alguns remédios, mas não foi informada sobre o transtorno. Ela afirma que, por meio de pesquisas, descobriu que sofria do transtorno. “Anotei tudo o que sentia em uma folha de papel, e marquei uma consulta com a ginecologista (para entender o problema). Ela me passou um antidepressivo, mas não falou nada sobre o transtorno. Eu que, por meio de pesquisas, descobri a doença, e tudo o que eu lia sobre, era exatamente o que eu sentia.”

O médico psiquiatra Thiago Sales explica que a Tensão Pré-Menstrual é causada pelos hormônios que variam no período da ovulação e menstruação da mulher, sendo um dos principais o estrogênio e progesterona. “A Tensão Pré-Menstrual, ou Disforia Pré-Menstrual, provoca sintomas de caráter principalmente emocional, por exemplo, irritabilidade, ansiedade, sensibilidade, fragilidade do ponto de vista emocional”, exemplificou Sales. A presença e o tempo de duração podem variar de acordo com cada mulher, pois cada organismo funciona de forma diferente.

Thiago afirma que o que diferencia a Disforia Pré-Menstrual para o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual é a intensidade. Quando a disforia traz um alto sofrimento psíquico, trazendo prejuízos, se torna um transtorno. “O sofrimento pode ser subjetivo, o prejuízo pode ser um prejuízo social, de relacionamentos, com a família, no trabalho, entre outros, que indica uma necessidade de tratamento medicamentoso. Não existe diferença de sintoma específico, o que diferencia um do outro é a intensidade e o grau de sofrimento e prejuízo do paciente.” Normalmente, a TDPM traz sintomas mais psicológicos do que físicos.

De acordo com o Portal das Associações Brasileiras das Associações de Ginecologia e Obstetria (Febrasgo), a Síndrome Pré-Menstrual (SPM) atinge cerca de 80% das mulheres antes da menopausa, que apresentam diferentes sintomas. Já a TDPM atinge de 3 a 8% dessas mulheres. O diagnóstico para diferenciar a TDPM da SPM é apresentar no mínimo cinco dos sintomas listados pelo Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (DSM IV):

-Humor deprimido, pensamentos autodepreciativos e falta de esperança;

-Acentuada ansiedade ou tensão;

-Instabilidade afetiva acentuada;

-Raiva ou irritabilidade acentuados, de forma a atrapalhar relações interpessoais;

-Sentimento subjetivo de dificuldade em concentrar-se;

-Letargia, fadiga fácil ou acentuada, falta de energia;

-Acentuada alteração de apetite, excessos alimentares ou avidez por determinados alimentos;

-Hipersonia ou insônia;

-Sentimento subjetivo de descontrole emocional;

-Sintomas físicos da TPM mais intensos, como dores de cabeça, inchaços, entre outros.

Estudos médicos e psicológicos realizados sobre o as alterações acontecidas em período pré-menstruais ainda buscam definir todos os causadores da TPM, mas uma variação significativa dos níveis de serotonina, endorfinas e de cálcio estão presentes em diversos casos.

Ana Lúcia*, 29, é psicóloga e descobriu que tinha o transtorno há um ano. “Desde nova eu sempre tive uma TPM fora do comum. Já terminei muitos relacionamentos por conta desse período, que sempre foi tratado como exagero por todos, até por mim. Às vezes me achava dramática, só que quando mais velha fui ficando pior, e isso afetava a faculdade, amizades, emprego e tudo mais.”

Ela conta que ano passado, em momentos de crise, pensou em suicídio. Até que conversou com uma amiga sobre o assunto, que a indicou uma médica ginecologista que conhecia o transtorno. “A médica que encontrei me explicou exatamente como funcionava e o motivo. Desde fatores genéticos, ambientais, gastos excessivo da minha serotonina e desde então eu faço tratamento com ela. Já fui em diversos ginecologistas, que ignoraram a intensidade da minha TPM. Um médico falou para eu comer chocolate. Mas meu tratamento é com remédio, que isole minha serotonina, de forma que eu não a gaste tão rápido”, explica Ana Lúcia o seu caso.

Como é o tratamento para Síndrome Pré-Menstrual e Transtorno Disfórico Pré-Menstrual

A médica ginecologista Hilma Girão explica que, no caso do Transtorno Disfórico Pré-Menstrual, o tratamento deve ser personalizado para cada cliente. “A TDPM, por ser uma intensificação da TPM, faz as pacientes ficarem bem mais sintomáticas”, explica Hilma. A médica conta que os sintomas psicológicos ficam bem mais evidentes. “O tratamento depende muito do caso de cada cliente. A recomendação de anticoncepcionais, antidepressivos, vitaminas, suplementos, mudanças de alimentação e de vida e outros inibidores de sintomas variam de acordo com a situação de cada paciente.”

A ginecologista Débora Britto chama a atenção para os médicos fazerem um correto diagnóstico, para evitar confundir com outras doenças, o que pode atrapalhar o tratamento. “Os médicos precisam estar atentos às repercussões que esses sintomas podem trazer a qualidade de vida dessas pacientes. Embora muitas mulheres apresentem sintomas desconfortáveis no período pré-menstrual, é requerida atenção para um correto diagnóstico e abordagem. Sobretudo para diferenciar de outros quadros que podem confundir-se, como, por exemplo, a depressão, que pode exacerbar-se no período pré-menstrual.”

 

Em casos da Tensão Pré-Menstrual, além do tratamento por meio de analgésicos, atividade física regular e outros tratamentos alternativos, a ingestão de alguns alimentos podem amenizar os sintomas.

Alimentos que podem melhorar os sintomas da Tensão Pré-Menstrual

A nutricionista e doutora em ciências médicas, Kamila Oliveira, explica que alguns alimentos podem ajudar a aliviar sintomas da Tensão Pré-Menstrual. Alimentos ricos em fitomelatonina, como aveia, kiwi e castanhas, e ômega 3, como peixes e linhaça, podem atuar na diminuição dos efeitos da TPM. “A fitomelatonina melhora o sono reparador, enquanto o ômega 3 melhora os estados de inflamação, reduzindo dores de cabeça”.

Alimentos ricos em vitaminas D, E e B6, zinco, cálcio e magnésio também podem reduzir os sintomas. “O zinco aumenta os níveis de serotonina que combate raiva e tristeza; cálcio auxilia na contração muscular, vitamina D reduz fadiga e ansiedade, o magnésio é um vasodilatador, que facilita a circulação sanguínea; e a vitamina B6 auxilia a diminuir dores de cabeça”, informa Kamila Oliveira. Alguns suplementos ainda podem ser indicados, de acordo com a necessidade de cada caso, que deve ser prescrito por um nutricionista.

Kamila orienta evitar o consumo de cafeína, açúcar e álcool, que podem ter uma influência negativa no corpo, como aumentar a irritabilidade e causar dores de cabeça. O chocolate, alimento que muitas vezes é sugerido nessas épocas, traz esse maior conforto por conta do cacau presente. “O cacau é uma fonte de flavonóides e magnésio, que são antioxidantes com propriedades vasodilatadoras, que atuam melhorando o fluxo sanguíneo, na época da TPM.” Portanto, os chocolates mais recomendados são os com maiores níveis de cacau, e menos açúcar.

*Nome Fictício, com o objetivo de proteger a privacidade da entrevistada.

FONTE: O POVO ONLINE