Falta de remédios afeta tratamento de crianças com câncer

O problema de aquisição de medicamentos da rede estadual de saúde chegou às crianças com câncer. No Hospital Infantil Albert Sabin (Hias), remédios que compõem esquemas de quimioterapia de meninos e meninas com leucemia têm sido substituídos e racionados. Lara, 9, e mais dois colegas em tratamento fizeram um vídeo para pedir ajuda. “É ruim, mas a gente tem de tomar. Mesmo que o cabelo caia e que arda, não vai deixar a gente ficar doente”, diz a menina, compreensiva.

Lara foi diagnosticada em janeiro. No mesmo dia já ficou internada para iniciar a quimioterapia. Quando voltou para continuar o tratamento, recebeu a negativa. “Ela ainda fez o exame para saber se a imunidade estava bem, porque precisa estar. Estava tudo ok, mas ela não tomou a QT (quimioterapia) porque não tinha”, conta a mãe da menina, a manicure Francisca Valéria Braga.

Desespero. Essa é a sensação de Valéria e de outras mães. Uma lista com sete medicamentos foi formulada e, de acordo com as mães, todos estão em falta na unidade hospitalar.

“É desesperador. Minha filha está no comecinho do tratamento e precisa fazer tudo certinho. A médica disse que a falta de uma sessão pode fazer ela piorar de novo”, conta a dona de casa Iris Dayane Rodrigues, mãe da Islaiane, 10. O medo é de que os sintomas que denunciaram a doença voltem. “Ela tava com muita diarreia, sem ânimo, uma febre que ia e voltava. Quando começou a tomar a QT ela melhorou, voltou até a pintar”, relata.

Nesta semana, a Associação Peter Pan, especializada no combate ao câncer infantil, divulgou nota afirmando que, em fevereiro, teve de comprar o medicamento Granulokine, que aumenta o número de glóbulos brancos após a quimioterapia. Relata ainda a expectativa de que os entraves na disponibilização das “medicações vitais” sejam solucionados “porque na infância a urgência ainda se faz mais decisiva”, informa a nota.

A situação no Albert Sabin já havia sido identificada em dezembro pelo Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec). De acordo com a pediatra Regina Portela, responsável pelo setor de fiscalização do conselho, algumas mães têm voltado para casa com seus filhos sem tratamento. “Quando falta um antibiótico, existem outros que permitem a continuidade do tratamento. Mas em relação a quimioterápicos muitas vezes não tem substitutos”, explica. De volta à unidade há cerca de dez dias, a médica disse que a falta de medicamentos continuava. “Quando a gente detecta a falta de um produto porque não tem matéria prima, entendemos. Mas os técnicos relataram que o problema é a quantidade”, acrescenta. (Sara Oliveira)

MEDICAÇÃO

MEDIDAS E ENTRAVES

PROMOTORIA

A promotora de Justiça e Defesa da Saúde Pública, Ana Cláudia Uchoa, disse que tomou conhecimento da situação do Hias por vídeo com Lara.

DEMANDA

Conforme Cláudia, o MPCE solicitou o quantitativo de demanda e estoque dos medicamentos. Hoje, os números deverão ser entregues.

MEDICAMENTOS

Os remédios que, segundo as mães, estão em falta são: Tioguanina, Mercaptopurina, MPX, Vespeside, Ondasetron, Ondastrina e o L-asparaginase.

HIAS

Em nota, Hias afirmou que o estoque deverá ser regularizado em março. E que “não houve prejuízo aos pacientes até a presente data”.

L-ASPARAGINASE

A Sesa afirmou que o L-asparaginase era comprado pelo Ministério da Saúde (MS) e que, em fevereiro, foi avisada que seria responsável pela compra. O MS informou que “está realizando uma compra para atendimento de seis meses, considerando o tempo hábil para que o hospitais realizem a compra do medicamento.

Fonte: O POVO Online