Guerra às drogas não reduz violência, diz pesquisador

BRUNO PAES MANSO palestrou ontem na Assembleia Legislativa FABIO LIMA

A possibilidade de convivência com o tráfico de drogas seria uma das saídas para o Estado brasileiro tentar reverter a violência urbana em um País dominado pelas facções criminosas. A avaliação é do cientista político Bruno Paes Manso, professor e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP). Manso participou, ontem, em Fortaleza do Seminário Internacional sobre Segurança Pública. Iniciativa do Conselho de Altos Estudos e Assuntos Estratégicos da Assembleia Legislativa e das universidades Estadual (Uece), Federal (UFC) e de Fortaleza (Unifor).

A ideia de convivência com essa realidade posta no Brasil, explica Bruno Manso, não é aceitar o crime nas cidades, mas ter a mudança de postura em relação ao comportamento do Estado diante da violência produzida. Por exemplo, segundo ele, quando não se consegue pensar além da “equivocada guerra contra as drogas” ou achar que a proposta de um programa como o “Ceará sem drogas”, citado por ele, irá modificar o cenário.

“Drogas não necessariamente estão associadas à violência. A gente nunca vai conseguir acabar. O Ceará seria a primeira sociedade da história do universo a conseguir isso. A droga sempre esteve presente numa sociedade”, afirma Manso, que pesquisa o fenômeno da produção da violência desde 1999. Ele menciona São Paulo, hoje maior mercado consumidor de drogas no País, que há 18 anos registra redução de seus índices de violência.

O desafio, segundo o professor, “é produzir um mercado não violento de drogas, já que a gente não vai regulamentar o comércio, que seria o ideal. O problema do comércio de entorpecentes é a violência gerada por esse negócio”.

E como seria possível conviver com o problema sem a liberação e regulamentação do mercado de drogas? Para Manso, primeiro teria de se fragilizar o poder das facções de traficantes. A saída óbvia, com pesquisa científica e inteligência policial, seria entender no detalhe a estrutura dos grupos. “Como se movimentam, onde lavam o dinheiro, onde compram armas e drogas. Um diagnóstico e um combate na parte financeira”.

De acordo com o pesquisador, que também é jornalista e economista de formação, os próprios “empresários do tráfico” passaram a compreender que a produção de violência não é lucrativa para o crime. “Quando todo mundo começa a se matar, não é interessante. Porque vai haver a vingança e isso será prejuízo. O interessante para eles é ganhar dinheiro no crime e sobreviver. Isso é a história da própria humanidade: lucrar mais com menos risco”.

Manso lembra como o crime foi mudando o comportamento em São Paulo. Quando havia violência extrema em uma determinada comunidade e a polícia era levada a atuar lá de forma mais incisiva, a ação terminava sufocando financeiramente uma “biqueira” (os pontos de droga).

 “Tinha seis chacinas em um bairro e aí o Estado montava uma operação de saturação com as polícias lá e os caras (traficantes) vão quebrar. A violência produzida pelo tráfico vai quebrar aquelas biqueiras, aquele comércio vai quebrar financeiramente. Em São Paulo os caras começaram a falar: ‘não mata que atrai polícia’. Então começa a induzir mudança de comportamento onde o crime atua com violência e tirania”, afirma Manso.

O pesquisador da USP ressalta que essa mudança de comportamento não será feita “com um pacto com o crime, mas na busca por uma nova compreensão dessa dinâmica. O desafio do Estado não é acabar com a droga, mas como acabar com a violência produzida por esse comércio ilegal.”

Segundo Manso, enfrentar o tráfico com “guerra” acabou potencializando o poder das organizações criminosas e criou a “ideologia do crime” dentro e fora do sistema carcerário. O Estado, o sistema, passou a ser o “inimigo” a ser derrotado.

Fonte: O POVO Online