Niko Kovac e as leis de Murphy

Técnico croata não resiste a goleada fatal e é demitido do Bayern. Em meio a mal-entendidos, fracassos e descontentamento na equipe, sua breve passagem pelo clube confirma tese de que “se algo pode dar errado, dará”.O engenheiro aeroespacial Edward Murphy dizia que “se algo pode dar errado, dará”. A breve passagem de apenas um ano e quatro meses de Niko Kovac pelo Bayern confirma essa tese. Tudo começou com um grande mal-entendido e, por isso mesmo, tinha todos os ingredientes para dar errado. O pontapé inicial foi a conturbada contratação do técnico croata anunciada em abril de 2018. Antes, o presidente do clube, Uli Hoeness, havia tentado a todo custo convencer Jupp Heynckes a permanecer no cargo por pelo menos mais uma temporada. O diretor executivo Karl-Heinz Rummenigge, por sua vez, desde o começo daquele ano, não fazia segredo de que queria Thomas Tuchel no comando da equipe. Quando Hoeness finalmente se convenceu que seu amigo Jupp estava mesmo a fim de se aposentar, já era tarde demais. Tuchel estava de malas prontas para Paris, rumo ao comando técnico do Paris Saint-Germain. Foi quando o plano B entrou em ação, com a contratação de um técnico sem nenhuma experiência internacional em clubes de grande porte e com apenas um título nacional na bagagem – o da Copa da Alemanha de 2018, com o Eintracht Frankfurt. Mal chegou em Munique, conceitos táticos entraram em rota de colisão. No Frankfurt, Kovac priorizava um futebol robusto, de intensidade física aliada à extrema disciplina defensiva, e de alta velocidade nos contra-ataques. O recém-chegado técnico tentou implantar essa forma de jogar no Bayern, no qual ainda reinava o conceito de posse de bola com todas as suas consequências do estilo tiki-taka implantado por Pep Guardiola. Sem conseguir impor os seus conceitos táticos ao time, Kovac viu sua equipe patinar na Bundesliga, que chegou a ficar nove pontos atrás do líder Borussia Dortmund no primeiro turno. Surgiram também primeiros sinais de descontentamento na equipe. De acordo com o jornal Bild, o talentoso colombiano James Rodríguez, depois do desastrado empate com o Fortuna Düsseldorf (3 a 3), teria gritado no vestiário para todo mundo ouvir: “Isso aqui não é o Eintracht Frankfurt! É o Bayern.” Muitos insiders, com acesso a informações privilegiadas do grande clube bávaro, consideram que a ruptura do apoio incondicional por parte da diretoria ao técnico veio com a derrota diante do Liverpool na Allianz Arena, em Munique, e a consequente eliminação da Champions League. Mesmo a retumbante vitória sobre o Dortmund, algumas semanas mais tarde pelo campeonato alemão, não conseguiu restabelecer o indispensável elo de confiança. Especialmente para Rummenigge, era inadmissível que, na sua própria casa, o Bayern tenha se apresentado de forma tão covarde, extremamente medroso, sem iniciativa e submetendo-se à equipe inglesa tal qual um camundongo assustado diante da cobra pronta para dar o bote. Exceto pelo fato de ter fracassado na Champions, o Bayern acabou relativamente bem a temporada passada ao vencer os dois títulos nacionais. Jogadores descontentes como Hummels e James foram embora, e protagonistas como Robben e Ribéry se aposentaram. Sem contar que o pau para toda obra, o brasileiro Rafinha, atualmente no Flamengo, também deixou o clube. O Bayern gastou uma nota para remontar sua defesa com Pavard e Hernández. Literalmente na última hora trouxe ainda o instável meia-atacante Coutinho e, a pedido de Kovac, o medíocre Ivan Perisic. De pouco adiantaram esses reforços. Manuel Neuer, capitão da equipe, não hesitou em afirmar: “Esse não é o Bayern que eu conheço.” O goleiro da seleção alemã faz sua nona temporada em Munique. Em nenhuma das campanhas anteriores, à essa altura do campeonato, a defesa bávara já havia sofrido 16 gols. Agora basta olhar a tabela. Nunca, nos últimos nove anos, Neuer foi tantas vezes buscar a bola no fundo de suas próprias redes como agora. Depois da estonteante e, até agora, inexplicável goleada histórica sobre o Tottenham, o Bayern desandou de vez. Não bastassem as irreconhecíveis apresentações do time, mesmo quando às duras penas saía de campo com uma vitória, somavam-se declarações de Kovac que soaram muito mal aos ouvidos dos torcedores bávaros. Dizer que um dos maiores ídolos da torcida, Thomas Müller, só serve para quebrar o galho, enfureceu os fãs. Não bastasse isso, referindo-se ao jogo entre Bayern e Liverpool, Kovac tinha dito que “não adianta tentar andar a 200 quilômetros por hora numa Autobahn se seu carro só consegue chegar a 100″, uma referência explícita à suposta má qualidade da equipe. Tudo piorou ainda mais um pouco quando, antes da partida fatal contra o Eintracht Frankfurt, na qual o Bayern sofreu uma goleada por 5 a 1, o treinador elogiou sobremaneira a torcida adversária: “São os melhores fãs da Liga.” Niko Kovac fracassou porque tentou repetir no Bayern a fórmula que deu certo no Eintracht Frankfurt e, mesmo quando percebeu que isso não funcionaria, insistiu com seu conceito de futebol simplório e rudimentar. Também nesse caso, se aplica uma outra lei de Murphy: “Quando um trabalho é mal feito e não dá certo, qualquer tentativa de melhorá-lo, só piora.” ______________ A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | App | Instagram | Newsletter

FONTE: O POVO ONLINE