O que se sabe sobre a morte da vereadora Marielle Franco

A morte da vereadora Marielle Franco (Psol), 38, repercutiu no Brasil e no mundo. A voz destoante, saliente e crítica da parlamentar foi calada na noite de quarta-feira, 14. Correligionários interpretam como execução motivada politicamente.

Sob pressão da mídia, da Ordem dos Advogados do Brasil e de instituições internacionais, a Polícia Civil do Rio, que está sob intervenção federal, tenta elucidar o crime. Nenhum suspeito foi preso. O POVO Online lista o que se sabe até o momento sobre o assassinato. 

Quem foi Marielle?
A vereadora era moradora do Complexo da Maré e defensora dos direitos humanos, autora de frequentes denúncias de violações cometidas contra negros, moradores de favela, mulheres e pessoas LGBT. Ela foi a quinta mais votada do Rio, com mais de 46 mil votos; seu assassinato, uma provável execução, segundo a Polícia.

“Era uma mulher sorridente, forte, segura, coerente e pé no chão. Olhava no olho das pessoas, nunca foi deslumbrada, ela sabia que era um corpo estranho no lugar que ocupava”, disse à AFP a produtora cultural Marcela Lisboa, que se aproximou de Marielle quando ela começou a militância pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol).

A atuação policial foi um de seus principais focos e tema de sua tese de mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre o fracassado projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) - “UPP: a redução da favela a três letras”. Antes, ela havia se graduado em Sociologia na Pontifícia Universidade Católica (PUC). 

Seus últimos anos foram vividos ao lado da arquiteta Monica Tereza Benício. “Era uma pessoa cheia de vida, cheia de gás, uma pessoal fundamental para o Rio de Janeiro, brutalmente assassinada”, disse Marcelo Freixo, deputado do Rio, abalado, na noite desta quarta, no local onde ela foi assassinada. 

Como aconteceu o crime?
Marielle coordenou o debate “Jovens Negras Movendo Estruturas”, promovido pelo Psol na Casa das Pretas, Centro do Rio. De acordo com a investigação, um carro clonado com placa de Nova Iguaçu já estava parado na porta do local quando a vereadora chegou e estacionou. Neste momento, um homem saiu do carro e falou ao celular.

Após duas horas, encerrado o debate, às 21 horas, Marielle foi embora no carro (Chevrolet Agile) com uma assessora e o motorista, Anderson Pedro Gomes, 39. Elas seguiam no banco de trás. O veículo estacionado também saiu, piscou o farol e seguiu o carro de Marielle. No meio do caminho, próximo à estação Estácio do metrô, um segundo veículo entrou na perseguição. Na Rua Joaquim Palhares, o carro foi emparelhado e os criminosos abriram fogo.

Em perícia, foi constatado que 13 disparos atingiram o veículo, sendo nove na lataria e quatro no vidro. Quatro balas acertaram a cabeça da vereadora e três as costas do motorista. Ambos morreram na hora. Os criminosos conseguiram fugir. A assessora de Marielle estava no banco traseiro mas não foi baleada, apenas se feriu com estilhaços. Ela foi medicada no Hospital Souza Aguiar e liberada. Em seguida, passou a madrugada prestando depoimento na Divisão de Homicídios, na Barra da Tijuca.

O velório de Marielle aconteceu na Câmara Municipal do Rio

Qual a principal suspeita da Polícia? 
O chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, admitiu que o crime pode ter sido uma “execução”, mas afirmou que a investigação está sob sigilo. Os indícios são fortes de que tenha ocorrido um crime de encomenda porque nada do carro foi levado, o que enfraquece que a intenção dos criminosos tenha sido um assalto.

Neste domingo, 18, a Polícia Civil de Minas Gerais afirmou ter localizado um carro que possivelmente foi utilizado no momento do crime. O veículo tem cor e modelo semelhantes aos do veículo que teria sido usado pelos assassinos. A apreensão foi feita e a Polícia do Rio deslocou uma equipe para realizar a perícia.

Que arma foi utilizada no crime? 
A polícia ainda não sabe que tipo de arma foi usado. Segundo a perícia, a munição utilizada foi calibre 9 mm, de uso restrito, que pode ser disparada por pistolas ou por submetralhadoras.

É a mesma que foi usada para matar 17 pessoas em agosto de 2015 nas cidades de Osasco e Barueri (Grande SP). No caso, três policiais militares e um guarda civil foram condenados pela chacina.

A munição veio de lotes vendidos para a Polícia Federal de Brasília, em 2006. Conforme a perícia, o lote UZZ-18 foi vendido à PF pela empresa CBC no dia 29 de dezembro de 2006.

A próxima etapa de investigação será um trabalho conjunto de rastreamento, feito pela Polícia Civl e Polícia Federal. A PF, inclusive, instaurou inquérito para investigar a origem das munições e o contexto em que as cápsulas foram achadas no local do crime.

Após essa informação vir à tona, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, voltou atrás e afirmou que não vai mais pedir a federalização da investigação dos assassinatos.

O que a única sobrevivente do ataque contou à Polícia?
Ela disse que só conseguiu ouvir um estrondo e não viu nada do que ocorria fora do carro no momento em que os tiros foram disparados. Ela conseguiu apenas retirar a perna de Anderson do acelerador, que naquela altura já estava morto, desligar o carro e se jogar para fora.

“Foi um ato covarde”, diz irmã de Marielle

Agachada, ela se locomoveu até conseguir avisar o marido sobre o ataque, que acionou o socorro mais próximo. Assim que foi encontrada, Fernanda, que foi apenas atingida por estilhaços, tremia sem parar. Após ser medicada no hospital, ela prestou depoimento por três horas à polícia.

Como foi a repercussão?
A comoção pelo assassinato da vereadora foi o assunto mais comentado no Twitter nesta quinta-feira, 15, com a hashtag #MariellePresente. 

O cantor Caetano Veloso tuitou um clipe dedicado a Marielle. “Estou triste, tão triste, muito triste”, diz o verso cantado ao som do violão. 

“Toda morte me mata um pouco. Dessa forma me mata mais. Mulher, negra, lésbica, ativista, defensora dos direitos humanos. Marielle Franco, sua voz ecoará em nós. Gritemos”, escreveu a cantora Elza Soares.

Figuras políticas como o presidente de Bolívia, Evo Morales, e a ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, também condenaram o crime, assim como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

“Exigimos que o Brasil realize uma rápida e efetiva investigação que estabeleça as responsabilidades materiais e intelectuais do assassinato da defensora de direitos humanos Marielle Franco, e sancione os responsáveis”, tuitou a Comissão.

“A relevância política de Marielle, assim como suas denúncias e o contexto de seu assassinato são fatores determinantes que devem ser tratados como ponto central na apuração dos fatos”, afirmou o Centro pela Justiça e pelo Direito Internacional.

Para o Partido dos Trabalhadores (PT), a morte de Marielle foi “a mais trágica consequência da escalada autoritária” pela qual passa o País. 

O presidente Michel Temer se pronunciou, caracterizando o assassinato como “inaceitável, inadmissível, como todos os demais assassinatos que ocorreram no Rio de Janeiro. É um verdadeiro atentado ao Estado de Direito e um atentado à democracia”.

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, manifestou pesar. “Morre uma mulher. No caso de Marielle, morre um pouco cada uma de nós. Fica viva sua luta por Justiça e igualdade. E o nosso compromisso de continuar com ela. Assim, ela continua conosco. Para sempre Marielle!”, disse a ministra por meio da conta oficial do STF no Twitter.
O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos classificou o crime como “profundamente chocante”. 

A bancada de esquerda do Parlamento Europeu condenou o assassinato da vereadora e pede que Bruxelas suspenda imediatamente as negociações comerciais com o Mercosul. 

Organizações como a Anistia Internacional exigiram uma investigação rigorosa do assassinato de Marielle, destacando que era conhecido por suas críticas frontais aos abusos policiais e à recente intervenção militar na área de segurança do Rio. Marielle tinha sido nomeada relatora de uma comissão da Câmara Municipal que vai acompanhar a intervenção.

Houve protestos em todo o País. Em Fortaleza, atos contra a violência ecoaram nas praças da Gentilândia e João Gentil, no bairro Benfica, na noite de quinta-feira, 15. Centenas de pessoas lembraram a vereadora carioca Marielle Franco, 38, do Psol, morta nesta quarta-feira, 14. A manifestação antecedeu o ato ecumênico em memória das sete vítimas da chacina do Benfica, uma semana após a matança.

Fonte:  O POVO Online