Ocupar as ruas com Carnaval pode ser receita contra a violência

para especialista, no Carnaval, as pessoas preferem ir para rua vivenciar a oportunidade de compartilhar o espaço público TATIANA FORTES

SOCIALIZAÇÃO E AFETIVIDADE

O som de marchinhas e o batuque do tambor já ecoam na Cidade anunciado a festa maior. Em janeiro, os foliões começaram a ocupar os espaços no Pré-Carnaval, já na contagem contagem regressiva para a folia. Mesmo assim, o local natural e genuíno do Carnaval, que é a rua, também têm sido alvo de disputas violentas entre facções que buscam demarcar territórios, principalmente nas periferias de Fortaleza. Diante desse cenário, ocupar a rua com dança, fantasia e música têm sido meio obstinado de não se tornar refém da lógica do medo

“Eu acho que há sim um reflexo negativo do aumento da criminalidade, mas a festa não pode parar por isso”, explica a produtora cultural Cristiane Pires, 33. Ela trabalha na organização de eventos carnavalescos nas periferias. “O Carnaval é uma festa democrática, gratuita, das comunidades e é uma forma rica de ocupar a Cidade, trazer um respiro de forma alegre, bonita e com felicidade”, acredita.

Com programação agendada para todos os dias, a foliã Lívia Reinaldo, 29, conta que, mesmo diante do aumento dos números da violência, prefere os carnavais de rua. “O Pré-Carnaval e o Carnaval de rua estão se consolidando em Fortaleza e eu amo essa festa porque vem gente de todos os bairros. Tentei ir em uma festa no shopping, mas não tinha a mesma energia e eu acho que quanto mais gente tiver, mais seguro vai ser”, acredita. Ela conta que procura frequentar principalmente os polos da programação oficial. “Sinto mais segurança”, afirma.

Para o folião Yago Gadelha, 23, o Carnaval vem como uma apropriação maior do espaço público. “A gente como cidadão tem que entender que a rua é nossa, que o Carnaval é uma festa muito popular nossa, e o momento em que a população tem consciência de que a rua é dela”, afirma o estudante.

No entanto, mesmo diante da necessidade de resistir à cultura do medo, em alguns locais a violência é de fato impeditiva da folia. No bairro Dias Macêdo, localizado na Regional VI, a mesma do bairro Cajazeiras — onde aconteceu a maior chacina do Ceará — um bloco de mais de 15 anos de festa não vai sair neste ano.

“Antes, havia o receio, mas a gente saía tranquilo porque já conhecia as pessoas e as famílias. Agora, o crime está descontrolado”, afirma o presidente de um dos blocos no local. Ele conta que neste ano não chegou nem a concorrer em edital por medo de não conseguir completar a saída dos blocos. “Isso é muito triste porque nem todos das comunidades têm condições de ir para a Praia de Iracema curtir o Carnaval”, lamenta.

De acordo com ele, até as apresentações da banda do bloco foram reduzidas. “Antes, nós fazíamos cerca de 25 apresentações em outras festas. Neste ano só fizemos quatro. Deixamos de nos apresentar em Messejana, Pirambu, Granja Portugal, Montese e outros bairros”.

Dentro da programação oficial, o Mercado da Aerolândia é o polo mais distante do eixo Praia de Iracema-Aldeota-Centro. Quando se olha o mapa da festa programada pela Prefeitura, percebe-se que ela fica muito mais restrita a uma área centro-litorânea da Capital.

De acordo com Francisco Paulo de Almeida, presidente do Bloco Mercado Folia, que se apresenta na Aerolândia, a agremiação organiza outras atividades culturais e a população sempre foi atuante e participativa. “Apesar de ser um bairro que tem conflitos, a gente trabalha aqui durante o ano todo para que a população não fique receosa e venha para a festa. E vem gente de todo lugar aqui para o mercado”, celebra.

Jânia Perla, antropóloga e pesquisadora do Laboratório de Estudos Sobre Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV-UFC), reflete sobre como a violência interfere na sensação de insegurança. “As pessoas veem no noticiário as chacinas e uma série de fatos violentos que tiveram visibilidade pública”, cita.

No entanto, ela também observa que as festas populares vêm ganhando força em Fortaleza e que o Carnaval pode ser motivador de ocupação diferente das ruas. “O contato entre as pessoas, que essas festas promovem, é importante porque elas são momentos de socialização e de afetividade, que é uma lógica da convivência e de vivenciar a Cidade. E as festas trazem um resultado exatamente oposto a essa dinâmica do medo que o crime organizado e as facções acabam instaurando”, comenta.

A pesquisadora ressalta ainda que há no Carnaval um forte apelo emocional e popular. Para ela, o período pontual e a adesão coletiva acabam encorajando as pessoas. “É um período específico. Então, é como se as pessoas, de certa forma, se elas têm algum medo, encarassem esse medo e preferissem ir para rua vivenciar essa oportunidade de compartilhar o espaço público”, afirma. Para ela, esse enfrentamento é também o entendimento do direito à diversão na Cidade. “E isso é muito importante, porque não é só uma ato festivo, mas de cidadania”.

SEGURANÇA

EM COLETIVA na última segunda-feira, 5, a Prefeitura de Fortaleza divulgou a operação de segurança no Carnaval. A Guarda Municipal atuará com 488 agentes. De acordo com o plano operacional, uma média de 50 guardas estarão distribuídos nos dez principais pontos de festa na Cidade. Destaque para maiores contingentes em locais tradicionais, como Avenida Domingos Olímpio, Aterrinho da Praia de Iracema, Mercado dos Pinhões e Mocinha.

A POLÍCIA MILITAR disponibilizou 2.500 agentes para trabalhar nos 9 polos carnavalescos da Capital. Somente no Aterro da Praia de Iracema, 50 policiais extras farão a segurança. Além disso, outros 100 policiais ficarão de plantão na Secretaria da Segurança Pública caso haja necessidade de reforço em algum polo.

POR TELEFONE, a Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) afirmou que além da Guarda Municipal e da parceria com a PM, também são contratados seguranças particulares.

Fonte: O POVO Online