Os percalços de quem deixou a Venezuela e se refugia no Brasil

DESDE MARÇO ATÉ O FIM DE 2017, 22 mil venezuelanos solicitaram refúgio no Brasil MAURO PIMENTEL/ AFP

O comunicador social venezuelano Wilmer Cordero Sira, de 23 anos, vive há cinco meses no Brasil. Com CPF, carteira de trabalho e residência temporária de dois anos, ele hoje trabalha como assistente administrativo para uma multinacional de alimentos em Ribeirão Preto, São Paulo. Wilmer foi recrutado em Boa Vista, Roraima, pela empresa que precisava de falantes de espanhol nativos. A cidade do Norte já recebeu cerca de 40 mil migrantes e, segundo o Governo Federal, vive estado de “vulnerabilidade”.

 

“Estou muito feliz. É a oportunidade mais grande que tem tido aqui. Gosto muito do trabalho e do pessoal que é muito amigável. Até agora todos os brasileiros que tem conhecido são pessoas com o coração muito grande”, relata Wilmer, com seu português em fase de aprimoramento.

Ele faz parte dos mais de 50 mil venezuelanos que entraram no Brasil após o agravamento da crise econômica no país vizinho. Com o salário que ganha em reais, toda semana, Wilmer faz depósitos para a família que ficou na Venezuela. Ele conta que, mesmo com a ajuda, muitas vezes os parentes não conseguem encontrar produtos de primeira necessidade nas prateleiras. A inflação no país já atingiu a marca de 700%. “E às vezes não conseguem sacar o dinheiro, mesmo que tenha, porque os bancos restringem os saques”, explica.

O jovem planeja trazer parte da família ao Brasil, assim que conseguir se estabilizar. A permissão de residência temporária só foi permitida por conta de portaria publicada em março de 2017, que permite residência de pessoas vindas de países fronteiriços. Até o fim do ano, foram registrados 8 mil pedidos dessa nova modalidade. Nesse mesmo período, 22 mil venezuelanos solicitaram refúgio. Um solicitante de refúgio tem direito a receber imediatamente CPF, carteira de trabalho e acesso a saúde e educação. A principal entrada para o Brasil fica na pequena cidade fronteiriça de Pacaraima (RR), com 16 mil habitantes. Ali chegam sem dinheiro, famintos e com o sonho de uma vida melhor cerca de 600 venezuelanos por dia, segundo dados da Polícia Federal. Alguns atravessam para comprar alimentos ou produtos em falta e voltam para casa. Mas há aqueles que ficam. De acordo com a coordenadora do Centro de Acolhimento ao Imigrante em Roraima, Alba Gonzalez, houve famílias que fizeram o percurso de 200 km de Pacaraima a Boa Vista a pé. Outras dependem de carona de caminhoneiros que passam pela região porque lhes falta dinheiro até para o transporte.“Assim como tem o sonho americano, tem o sonho brasileiro. Chegam em Boa Vista e isso se desfaz. Não tem trabalho, nada. Nem onde dormir, aí dormem na praça. Eles começam a se virar, vivendo como podem”, afirma. Também venezuelana, Alba chegou ao Brasil em 2015, onde mora com o marido e dois filhos.

Alba enfrentou uma gravidez de risco e, pela falta de insumos nos hospitais da Ciudad Bolívar, capital do estado venezuelano que faz divisa com Roraima, os médicos recomendaram que ela tivesse o bebê no Brasil, onde teria tratamento adequado. “Tenho sido muito bem atendida. Xenofobia é uma questão que, no atendimento, não tenho como dizer que existe. Outras pessoas, outras experiências podem demonstrar o contrário. Mas eu sempre fui bem atendida”, descreve.

Jornalista de formação, Alba tem dedicado os últimos anos a ajudar famílias na fronteira. Ela conta que a sociedade civil de Boa Vista tem cumprido papel fundamental na sobrevivência dos migrantes venezuelanos.

“Eles tiram do próprio bolso. O potencial do coração das pessoas é grande. Não podemos exigir que Boa Vista e Brasil aceitem a gente. Mas pedimos uma oportunidade para nos conhecer. Temos que ter a cultura de que estamos no povo de vocês, e ser gratos”, diz.

O marido trabalha no setor de vendas de uma multinacional inglesa. Mas, segundo Alba, a maioria dos compatriotas que chegaram recentemente não conseguem trabalho. Vivem de bicos e da caridade da população de Roraima.

ISABEL FILGUEIRAS

CORRESPONDENTE DO O POVO EM SÃO PAULO

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