PCC no exterior: “Eles não têm fronteira”, diz promotor

De quando surgiu 25 anos atrás, em 1993, formada por integrantes de um time de futebol que lideraram uma rebelião na penitenciária de Taubaté, no interior paulista, a facção Primeiro Comando da Capital cresceu demais. Hoje espalhada nos 27 Estados, o PCC passou os 30 mil integrantes no Brasil.

E mira agora todo o continente sul-americano.

A facção já tem mais de 350 homens bem armados no Paraguai, outros 200 na Bolívia e está enviando pessoal para ruas e penitenciárias do Peru, Colômbia e Venezuela. São países do Narcosul, o bloco geográfico do tráfico de maconha, cocaína e drogas.

“Sem dúvida, na América do Sul, o PCC é a maior organização criminosa”, diz o promotor de Justiça, Lincoln Gakyia, do Ministério Público de São Paulo. Nesta entrevista, ele fala da dificuldade de combater as teias da facção nos países vizinhos, de falta de integração nas investigações e de como o PCC procura lavar o dinheiro sujo obtido nas ações criminosas.

Gakyia é do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). No início deste mês, apresentou à Justiça a denúncia da operação Echelon, que mostrou o organograma do PCC chefiado a partir das penitenciárias brasileiras. No Brasil, a facção movimenta R$ 400 milhões/ano.

 

O POVO – Qual é o porte do PCC atualmente na região de fronteira do Brasil?

Lincoln Gakyia – O que a gente vê hoje é um avanço do PCC principalmente nesses países fronteiriços, produtores de cocaína e maconha. Principalmente Paraguai e Bolívia. Mas a gente já tem notícia de integrantes do PCC no Peru, que é um fornecedor de cocaína pra eles. Na Colômbia, na Venezuela. A gente vê com muita preocupação. Temos trocado informações com o pessoal da área federal sempre que possível. Já tivemos reuniões também com integrantes do Ministério Público do Paraguai, também nesses países vizinhos. É preocupante e esses países também têm que procurar conter essa expansão.

OP – Algum dos países da América do Sul tem um trabalho dirigido para tentar frear essa atuação tão incisiva da facção no continente? Alguma investigação em andamento também fora do Brasil?

Gakyia – Acho que o principal problema seria no Paraguai e na Bolívia. No Paraguai, tenho conhecimento de que há um trabalho da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), com apoio de autoridades brasileiras. Um trabalho muito bom no combate a essa expansão do PCC naquele país. Quase diariamente eles têm feito prisões importantes. O problema maior para nós tem sido na Bolívia. Lá não tenho visto esse mesmo trabalho de contenção. Há uma dificuldade, inclusive das polícias, de colaboração com o governo boliviano.

OP – O jornalista paraguaio Cándido Figueredo Ruíz, que acompanha a evolução da facção no seu país, disse que, atualmente, na fronteira entre Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero (PY), deva haver cerca de 350 homens armados.

Fora os faccionados que já estão inseridos nas penitenciárias locais. Qual o número de integrantes em outros países sul-americanos?

Gakyia – Na Bolívia, creio que eles devam ter esse mesmo efetivo, talvez mais de 200 integrantes. Mas no Peru e Colômbia é bem menos, acho que daria para contar ainda nos dedos. Falo de integrantes batizados pela facção. São aqueles que fazem a proteção da cadeia de distribuição da droga. Mas realmente o país com o maior número é o Paraguai, depois vem a Bolívia, com certeza.

OP – O que vocês do MP estão mirando em relação aos esquemas de lavagem de dinheiro, para desconstruir a linha financeira do grupo?

Gakyia – Existem várias formas de enfrentamento, mas há uma dificuldade em rastrear o caminho desse dinheiro. Porque normalmente o dinheiro dessas facções não circula pelo mercado financeiro. Isso nos causa um problema grande para acompanhar o fluxo desse dinheiro. A gente está trabalhando sim. Ainda há muita coisa sob sigilo, talvez nos próximos meses tenhamos novidade.

OP – Que tipo de investimento está sendo feito por eles para disfarçar o dinheiro sujo e criar patrimônio?

Gakyia – Com relação aos impetrantes, a maioria deles se dedica ao tráfico, normalmente são atividades em que encontram mais facilidade para justificar e ter menos fiscalização. É a presença do dinheiro em postos de gasolina, em lojas multimarcas de veículos e muito também em veículos/empresas particulares de transporte urbano. As lotações, os perueiros. A maioria dessas vans está em cooperativas e eles estão infiltrados em várias delas. Sei que também há trabalhos de investigação, não aqui pelo meu grupo, mas de outros Gaecos (Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, ligados aos ministérios públicos) investigando essa situação. Por enquanto é o que eles procuram mais.

OP – Estamos falando muito da chegada da droga ao Brasil, mas queria que o senhor falasse também da saída. Nesse caso, o principal modal utilizado é o dos portos. Houve uma investigação grande da Polícia Federal no ano passado, envolveu portos de Itajaí (SC), Santos (SP), de Salvador (BA).

O Ceará é um ponto ainda mais próximo da África e Europa. O que está sendo investigado sobre a rota do tráfico que sai pelo Ceará?

Gakyia – Do Ceará especificamente não tenho as informações.

Acho que uma das dificuldades nossas, já andei falando disso, é da integração entre as forças policiais dos diversos Estados, entre os Ministérios Públicos, o Governo Federal, Polícia Federal. Porque a gente às vezes faz algum trabalho aqui em São Paulo, acaba extrapolando as fronteiras porque tem integrantes no País todo. É inevitável. Mas também não temos estrutura, não temos perna para fazer isso em nível nacional, atacando os portos. No porto de Santos já foram feitos vários trabalhos, pela Polícia Civil e mais pela Polícia Federal. Há poucos dias deflagraram outra operação que envolvia o porto de Santos (último dia 9, operação Antigoon, quatro toneladas apreendidas de cocaína). Sinto falta de a gente integrar os esforços, poder ter um canal confiável de troca de informações e talvez investigações de caráter permanente. Para acompanhar o desenvolvimento dessas organizações. E que essas investigações possam ter uma abrangência nacional.

Eles não têm fronteiras, mas a gente enfrenta essa dificuldade, de competência (jurisdicional) para poder atuar. O crime vê aí uma facilidade. É um trabalho que pode ser intensificado, mas para isso a competência é da Polícia Federal. Por isso temos que trabalhar em conjunto.

OP – Existem estimativas de quanto chegam a enviar de droga para África e Europa?

Gakyia – Por São Paulo, a gente acredita que em torno de uma tonelada de cocaína por mês.

OP – O PCC é o maior cartel de drogas do Cone Sul atualmente?

Gakyia – Eu tenho acompanhado bastante o crescimento de organizações, não só na América do Sul mas no mundo inteiro.

Estudo um pouco isso. Acredito que o PCC hoje na América do Sul, não tenho sombra de dúvida, que é a maior organização criminosa. Pelo número de participantes faccionados, batizados. A gente acredita que, entre todos os Estados do Brasil, cheguem a 30 mil integrantes. Isso a torna a maior organização da América do Sul.

OP – Fora essa periferia de novos membros que está surgindo nos países vizinhos?

Gakyia – Na verdade, o número não é tão grande quanto no Brasil. Chegam a pouco de 200, 300, nesses países. Mas existe a possibilidade também, se não for feito um trabalho nos países fronteiriços, de eles se multiplicarem por lá também. Quando a polícia aperta o cerco aqui no Brasil, eles fogem. Vários procurados aqui fogem para Paraguai e Bolívia.

OP – Gegê do Mangue e Paca, chefes da facção mortos aqui no Ceará, estavam transitando nesses países.

Gakyia – Eles estavam na Bolívia.

Fonte: O POVO Online