Premiê do Líbano renuncia em meio a onda de protestos

O primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, renunciou nesta terça-feira, 29, em meio a uma onda de protestos contra a corrupção que levou o Líbano à pior crise desde a guerra civil (1975-1990). A renúncia atende parte das exigências dos manifestantes – que pedem a destituição de todo o governo – e mergulha o país em uma instabilidade política ainda mais grave.
O anúncio foi feito logo após apoiadores do Hezbollah e do partido Amal, ambos xiitas, atacarem um protesto antigoverno em Beirute. Homens com os rostos cobertos agrediram manifestantes e atearam fogo em suas barracas. O confronto ocorreu após o líder xiita, Hassan Nasrallah, exigir que as estradas fechadas pelos ativistas deveriam ser reabertas e sugerir que os atos eram financiados por inimigos estrangeiros.
Na semana passada, Hariri tentou acalmar os ânimos ao propor um pacote de medidas acertado com outros grupos de sua coalizão, entre eles o Hezbollah, para acabar com a corrupção e promover reformas econômicas. Mas, sem medidas imediatas, os manifestantes permaneceram nas ruas.
Nesta terça, Hariri pediu paz e disse que é responsabilidade de todos os partidos garantir a proteção do país. “Cargos vêm e vão. A dignidade e a segurança do país são mais importantes”, afirmou. “É hora de termos um grande choque para enfrentar a crise.”
O estopim dos protestos foi o anúncio do governo de novos impostos – entre outros, uma taxa para chamadas de WhatsApp. As manifestações causaram o colapso da libra libanesa, que há anos tem baixo valor. Bancos ficaram fechados pelo décimo dia consecutivo, assim como escolas e comércios.
Pela primeira vez, os protestos reúnem manifestantes de diversas religiões por uma mesma causa, contra o sectarismo presente no Parlamento e na alta cúpula do governo. Um diplomata brasileiro que vive em Beirute relatou à reportagem que se trata de um movimento heterogêneo, com participantes pobres e ricos, tendo em comum a insatisfação com o governo patrimonialista.
A regra para composição do Parlamento libanês é um reflexo da diversidade religiosa da sociedade. O acordo prevê que metade das cadeiras seja de cristãos, com subdivisões entre católicos, ortodoxos, protestantes e evangélicos. A outra metade deve pertencer a muçulmanos, divididos entre sunitas, xiitas, alauitas e drusos. Entre os xiitas, há políticos do Hezbollah, apoiado pelo Irã.
Com exceção da violência desta terça, as manifestações têm sido pacíficas. Após quase duas semanas, elas estão “institucionalizadas”, segundo o diplomata brasileiro. Há uma organização civil para fornecer carona para quem quer ir aos protestos, comida para os participantes e mutirões para limpar as ruas. Outra característica, segundo ele, é a participação de uma geração pós-guerra civil, que cresceu sem conhecer o ódio sectário e manifesta repúdio a um governo considerado corrupto. (Renata Tranches, com agências internacionais).
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
FONTE: O POVO ONLINE