Rede dá apoio para mães seguirem vida acadêmica

CLÁUDIA SILVEIRA, estudante de Psicologia, e sua filha Yanni: acolhimento ajuda a continuar TATIANA FORTES

O curso de Psicologia já conta sete semestres para Cláudia Silveira, 38, mas há pouco menos de uma ano foi que a rotina de aulas e trabalhos começou a ser dividida com a Yanni, de apenas 10 meses. Todos os dias, a filha acompanha a mãe durante as aulas na Faculdade Maurício de Nassau e, entre uma amamentação e outra (em livre demanda), elas se apoiam, juntas se desenvolvem e se engrandecem. Essa é a realidade de centenas de estudantes, em sua grande maioria mulheres, que querem garantir o pleno direito à educação superior. Nesse aspecto, tanto as políticas públicas como a rede de apoio de amigos, professores, familiares e funcionários são decisivos.

Diferentemente do que ocorreu em março na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), quando um professor expulsou uma estudante que estava acompanhada da filha em sala, Cláudia foi acolhida pelos colegas e pelos professores quando retornou às aulas no segundo semestre do ano passado. “Eu tranquei um semestre e voltei no outro, a faculdade permitiu que eu continuasse com minha turma e alcançasse as outras disciplinas depois. Quando eu cheguei foi uma festa, tanto por parte dos professores como dos meus colegas que chegaram a fazer mais silêncio pra Yanni não acordar”, disse.

A estudante guarda fotos de professores acalentando a menina enquanto apresentam o conteúdo. Os colegas ajudam disponibilizando cópias dos conteúdos escritos em sala de aula. “Isso tem sido muito importante pra mim. Eu vejo outras mães que também trazem os filhos e isso me fortaleceu”, explica.Na universidade não há creche para os filhos dos estudantes. Cláudia tem outra filho de sete anos, o João Pedro, que fica em casa com o sobrinho e o pai na hora das aulas. Outro facilitador, na opinião dela, é ter um veículo. “Algumas mães vêm de ônibus e percebo a dificuldade”, reflete.

Recém-formada pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Liana Matias, que também engravidou durante o curso, conta que seguir a Licenciatura em Teatro sem interrupção de semestres só foi possível graças à compreensão de outra mulher.

“A coordenadora do curso, Fran Teixeira, foi extremamente humana depois que eu tive a minha filha. Possibilitou que eu enviasse trabalhos de casa e sempre estava aberta. Minha professora orientadora fez de tudo para que as orientações presenciais fossem o mais confortáveis possíveis”. Com hora marcada, Liana levava a filha Isis Flor, 2, com apenas três meses para as orientações e tinha toda a liberdade possível de amamentação e tempo de acalento que não era só para a filha, mas para si também.Foi diferente do cenário encontrado por Jéssica Evangelista, 25, mãe de Laura, 4. Grávida aos 21, no meio de uma graduação na Universidade Estadual do Ceará (Uece), ela viu a pressão se transformar em desestímulo. “Continuei as atividades mesmo com gestação de risco. Depois que eu tive a Laura, minha mãe me apoiou muito, mas os professores não foram flexíveis com faltas ou atrasos, foi muito traumático e eu desisti depois de mais três anos tentando”, lembra. Apesar da dificuldade, ela conta que é um caminho que se prepara para percorrer de novo.

O intervalo entre a gravidez e o início da graduação de Izabel Accioly, 30, foi de sete anos. O tempo serviu para se fazer forte diante do que viria depois. Cuidar do filho, trabalhar, buscá-lo na escola, ensinar deveres de casa, levá-lo à faculdade e a tentativa de um futuro diferente para si e o rebento. “O Vinícius, 12, foi meu maior apoiador, sempre entendeu, sempre me estimulou”. Ela concluiu a graduação de Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará (UFC) no fim do ano passado e iniciou mestrado na federal de São Carlos.

Além da força do próprio Vinícius, ela lembra que também contou com apoio de um dos funcionários da instituição. “Seu Nilson sempre perguntava por meu filho. O coordenador do curso na época, Luiz Fábio Paiva, também precisava levar o filho às vezes e isso me deixou mais confortável. É importante para a gente entender que essa não é só uma questão de mulheres”, disse. Para ela, proibir ou limitar a presença dos filhos é também tirar mães da universidade.

“É preciso desmistificar esse pensamento machista nas universidades de limitar as possibilidades e o alcance da mulher. Por isso eu insisti. Isso vai servir de exemplo para filha”, acredita Liana Matias.

Fonte: O POVO Online