Violência das facções atravessa escolas

(Foto: Fábio Lima/ O POVO)

O controle de territórios por facções criminosas também está impactando, de maneira contundente e negativa, na educação de crianças e adolescentes que vivem na periferia de Fortaleza. Para além das expulsões de moradores, a revogação do direito de ir vir nas comunidades, imposta por esses grupos, está obrigando alunos da rede municipal a mudarem de escola ou, até mesmo, a abandonarem os estudos.

A situação foi atestada pelo O POVO, após uma série de visitas e entrevistas com servidores de 15 instituições municipais de ensino, em diferentes regiões da Cidade. Bom Jardim, Barroso, Barra do Ceará, Vila Velha, Ancuri, Curió, Lagoa Redonda, Jangurussu, Conjunto Palmeiras. Há registros de evasão por esse motivo em todas as unidades. O problema se torna ainda mais grave porque, em sua maioria, as escolas estão localizadas dentro ou nos arredores de assentamentos precários, que já concentram elevados níveis de evasão. Somente em uma das instituições, na região do Grande Jangurussu, mais de 100 alunos já solicitaram transferência ou não compareceram mais às aulas. As desistências começaram em janeiro de 2017, com fim da pacificação entre facções. Porém, um dos servidores, que pediu para não ser identificado, informou que o quadro se agravou nos últimos dois meses, quando as expulsões de moradores se intensificaram, em territórios adjacentes.

“No começo de dezembro, tínhamos um controle sobre isso. Cerca de 50 alunos tinham pedido pra sair. Depois, perdemos o controle. Já fechamos turmas, inclusive, por falta de aluno. O pior é que, acredito, muitos estão fora da escola, já que nem a transferência eles solicitaram. Poucos foram para escolas mais próximas de suas casas. Pra cá, porém, não tivemos ninguém vindo”, detalhou a fonte.

Em outra escola, no Conjunto Palmeiras, um dos bairros mais afetados pela guerra entre facções, uma servidora explica que a maioria dos casos de evasão se dá pela proibição aos alunos de passarem por determinadas ruas ou avenidas pelo simples fato de morar em regiões dominadas por grupos rivais.

“Até mesmo as crianças menores são ameaçadas. Chegam à escola assustadas. Muitas precisam apanhar um ônibus e dar a volta no bairro para não cruzar algumas regiões, mas nem todos os pais podem pagar passagem e eles acabam desistindo”, lamenta a servidora.

O POVO procurou a secretária municipal da Educação (SME), Dalila Saldanha, para ouvi-la sobre a evasão. Na ocasião, a assessoria informou que a titular estava viajando e impossibilitada de conceder entrevista. Por meio de nota, a pasta comunicou que possui uma “política de combate à evasão e ao abandono escolar”, identificando situações que possam comprometer a frequência do aluno, incluindo a eventual problemática de “conflitos territoriais”.

Quando identificada a causa da ausência do aluno na escola, o núcleo gestor traça estratégias para evitar o “abandono escolar”. Ressalta ainda que, quando necessário, são acionadas a Célula de Mediação Social da SME e a Inspetoria de Segurança Escolar da Guarda Municipal (ISE), que tem parceria com a Secretaria Municipal da Segurança Cidadã. “A Inspetoria dispõe de viaturas e equipes treinadas para prestar assistência 24 horas, com patrulhamento ostensivo e rondas diárias”, conclui a nota.

O que diz a SSPDS

Procurada pelo O POVO, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que acompanha, “quando chega ao conhecimento Polícia”, a situação de proibições impostas por facções criminosas. Quando isso ocorre, a pasta afirma que realiza “ações de presença ostensiva, além de investigação criminal”.Sobre o caso específico dos alunos, a SSPDS informa que há uma “interlocução” entre as secretarias do Município e do Estado, “em especial com as equipes de busca ativa por esses alunos, que compõem a evasão escolar”. A pasta citou, como exemplo, a Escola Delma Hermínia da Silva Pereira, na comunidade do Gereba, no Jangurussu, que teve o policiamento reforçado.Entretanto, após citar a Delma Hermínia, questionada pelo O POVO sobre os demais casos, a SSPDS informou que “não divulga os bairros, nem escolas, para não estigmatizar essas regiões, nem estimular que se faça o mesmo em outros locais. Também para não comprometer o trabalho policial em andamento”.   O QUE DIZ A SECRETARIA DE EDUCAÇÃO

 A SME afirma que, entre 2013 e 2016, houve queda na taxa de abandono escolar. Entre os quatro anos, o índice baixou de 3,5% para 2%. Também houve aumento no número de matrículas para 2018, com o registro de 210 mil solicitações, até meados de janeiro.Em 2017, conforme o Censo Escolar, Fortaleza ficou em quarto lugar nacional na quantidade de matrículas realizadas, considerando as redes públicas de todo o País. A Secretaria não informou, porém, qual a taxa de evasão registrada em 2017, justificando que o levantamento ainda está “em andamento”.Por meio de nota, a pasta também ressaltou que todas as escolas da rede municipal mantêm o acompanhamento diário da frequência e uma busca ativa permanente, com o objetivo de evitar o abandono e a evasão, além de buscar reinserir estudantes que estejam fora da escola.Entre as ações desenvolvidas, a SME está implantando, ainda, o projeto Empaz – Escola Mediadora que Promove a Paz, com objetivo constituir e capacitar equipes de mediação nas escolas para desenvolver a mediação de conflitos e os processos circulares como estratégias de prevenção à violência e de promoção da cultura de paz.

A SÉRIE

Na edição de ontem, O POVO mostrou o cotidiano de terror imposto pelas facções criminosas nas áreas da periferia. Amanhã, abordará a dura realidade dos refugiados urbanos. 

DEMITRI TÚLIO demitri@opovo.com.br

THIAGO PAIVA thiagopaiva@opovo.com.br

FÁBIO LIMA fotografia@opovo.com.br

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